terça-feira, 18 de maio de 2010

016 no vale do absoluto desasossego

Era tarde, os olhos abertos a uma hora daquelas e sentir apenas os mosquitos como companhia não lhe augurava que o dia seguinte viesse a ser preenchido com a dose mínima daqueles conselhos de esperança que passavam a vida a dar-lhe.

Antes fosse verdade que aquela fotografia que vira num cemitério do seu país fosse de algum irmão perdido e que no meio de alguma tempestade pudesse morrer para o procurar na dimensão paralela onde vagueavam as almas penadas. Isto se ainda não tivesse reencarnado num qualquer animal, racional ou não. Eram apenas conjecturas que não alteravam os cabelos brancos e a fonte intensa de vazio que brotava do seu coração. Para quê mentir se a vida na forma de felicidade alcançada não passava de algo que só poderia alcançar por via da morte? O último dos sossegos, alcançado no sopé da montanha que avistava da sua janela, apesar de por lá não existir qualquer cemitério ou portal para um mundo diferente, sem angústia, buracos negros que apenas apressavam um destino baseado nas trevas. 

Seria possível acreditar que sem nunca ter vivido no meio de uma guerra se sentia obcecado pela ideia do sofrimento generalizado ao ponto de estar sempre a tingir o ponto de ruptura? Havia dias em que corria para a casa das cortinas vermelhas como se destruir aquele pesadelo fosse o essencial para se entregar de vez a uma vida normal. O corpo esse permanecia inerte, como se os fantasmas fossem mesmo verdadeiros e a primeira comunhão tivesse mesmo existido, embora sob a forma de uma qualquer cerimónia invertida no seu sentido litúrgico.

Eram pensamentos a mais para a vida simples que pretendia e decerto que teria que continuar o tratamento com os químicos, viciantes, porém necessários. Por isso e porque a cabeça se ressentia do esforço absurdo a que se sujeitava, ia-se esquecendo dos passos importantes que eram imprescindíveis para uma vida com um mínimo de qualidade. Ia-se deixando dominar por um sentimento de absoluta passividade em que nem a dormir conseguia encontrar a paz desejada. A namorada, essa vivia os seus tormentos do final de uma relação, algo que o fazia pensar ser um puro castigo, essa cena de ter de arcar com vidas de seres que apesar de tudo tinham a sublime capacidade de ser felizes no meio da desgraça que se abatia inclemente. Eram seres afortunados de quem ele não queria fugir.

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