Mostrar mensagens com a etiqueta 2. um corruptor inalcançável. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2. um corruptor inalcançável. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 8 de março de 2011

060 o inesperado visitante

Fez um pacto indelével com o homem  da barriguita a caminhar para o proeminente, só que dentro da sua cabeça congeminavam-se outros planos e atendendo a todos os extraordinários acontecimentos dos últimos tempos sabia que ele por si só tinha o poder suficiente para mudar tudo.
Caminhou dentro da cidade, em paranóia crescente por ter perdido toda a realidade que tanto o alegrava como deprimia, apenas por ser algo que o orientava nas horas que se sucediam. Eram apenas os demónios que se acercavam dos seus olhos. 

O cofre dos enigmas dourados estava perto e ele dirigia-se para lá com as trevas a engolirem tudo atrás. Parou no meio de uma rua deserta, escutou algo distante, parecia-lhe um ruído como o mar em fúria. Olhou para a esquerda e uma montanha de água aproximava-se rapidamente. Sabia que sobreviveria a isto, embora não soubesse ainda para quê.

Entrou num edifício gigantesco, fechou a porta e pôs-se a salvo daquela espécie de Apocalipse sem tréguas para destruir tudo quanto apanhava à sua frente.

Deu de caras com mais uma mulher deslumbrante, cabelos negros, olhos castanhos, voz melodiosa, corpo em perfeita harmonia como no sonho que tivera em tempos e em que havia possuído uma estranha , tal e qual como esta que se lhe apresentava diante dos sentidos em alvoroço. Lançou-lhe um sorriso e estendeu-lhe os braços. Ela abraçou-o com vigor e o seu cheiro entranhou-se com rapidez em cada um dos seus poros. Sem saber porquê lembrou-se da mensagem no deserto e esteve-se nas tintas para o fim do mundo, para os demónios e ainda mais para os anjos. Beijaram-se com uma paixão própria de amantes em delírio por uma qualquer ausência forçada, embora fosse a primeira vez que se viam. Fizeram amor até à exaustão, dele claro, que ela parecia uma fonte de inesgotável amor e excitação, despertando-o vezes sem conta até que o coração ameaçou parar de bater. Ele sentiu esse desconforto e parou. Levantou-se, pegou na mão dela e ao começarem a andar depararam-se com uma porta iluminada . De dentro vinha uma melodia que arrepiou de novo o corpo deles. Vinha acompanhada de uma voz, ora etérea, ora demoníaca. Os demónios inquietos colocaram-se todos na córnea, tentando captar toda a informação acerca do cofre dourado.

Ela desfez todas as pretensões do Céu e do Inferno, exorcizou-o e os sete demónios saíram de dentro dele, entranhando-se na parede iluminada. O som estava à beira do insuportável e de repente de novo o silêncio. Apenas eles os dois e o além para lá para lá do mar em fúria.

Finalmente apareceu o cofre dourado e ela desapareceu tal como tinha aparecido antes, apenas tudo se tinha transformado radicalmente.

Aproximou-se do cofre e sorriu, essa emoção fê-lo abrir-se e era a hora de saber o que lhe reservava o destino.

059 inclinado sobre as sepulturas

Não se viam os rostos, o caixão era negro e as lágrimas não se manifestavam nos presentes. Seguiu esse cortejo dentro da própria cidade. O silêncio absoluto fê-lo estremecer, mas nem por isso esmorecer. Os que iam no cortejo sabiam quem ele era envolvendo-o no seu manto negro de nada, sem alma, vidas entregues ao vazio emocional mas lúcidas o suficiente para se dirigirem às suas próprias sepulturas onde descansariam pela eternidade.

Não se deixou levar pelo medo da escuridão, apenas seguiu o caminho que lhe estava destinado. Foi uma longa viagem e pelo ruído que se percebia que vinha uma gigantesca multidão atrás. Cantavam em uníssono aquilo que parecia ser a invocação de alguma entidade, restava saber se benéfica ou maléfica. Sentiu-se desconfortável, sobretudo quando pararam e se afastaram, deixando o dia a descoberto e as sepulturas que queriam que ele visse.

Respirou fundo, lembrando-se que algo estaria profundamente errado para ter que presenciar todo o mal do Inferno, como se do Céu nada pudesse vir sem dor ou concessões em excesso.
Nenhuma novidade no horizonte, apenas uma campa com um menino lá dentro.

De repente, como quase sempre, ficou sozinho, apenas com aquela sepultura sinistra a abrir-se, saindo lá de dentro um menino vestido de branco, com os olhos raiados de sangue. Tocou-lhe ao de leve e a ira tomou conta dele.

Em poucos segundos ficou literalmente a sós. Apenas se ouviam os pássaros que esvoaçavam por ali. Começou a andar. Cada passo substituía no solo a terra por alcatrão. 

Olhou para trás e tudo estava negro. Virou-se de novo e assustou-se com um homem feio que se especou à sua frente. De estatura média, cerca de um metro e setenta, com uma barriguita a caminhar para o grande e vestido de forma desportiva, o cabelo oleoso acentuava a sua fealdade. ria-se mostrando os seus dentes sujos do excesso de tabaco. Propôs-lhe um negócio irrecusável, algo que abalaria os sete demónios que haviam entrado dentro de si e provocariam a ira de Deus, que lançaria os arcanjos em missão celestial para os exterminar. Só que ninguém tinha a possibilidade de descobrir a verdadeira essência da proposta sem que fosse derramado muito sangue inocente e nenhum arcanjo o podia fazer sem a autorização do Pai supremo de todas as forças por armar.

Após escutar a proposta e se decidir a aceitá-la o homem desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido. Deu-se então conta que era o líder da facção alternativa ao Céu e Inferno, o fundador da  Sagrada Loucura que urgia encher-se de abnegados peregrinos que pusessem um fim às guerras surdas travadas entre os exércitos de Deus e Lúcifer.

Por breves instantes deu-se conta que nunca lhe seria possível ceder às pulsões suicidárias que o afligiam.

058 traficantes de tudo

O casal virou-se para ele. Olhos vazios, voz monocórdica, discurso previamente ensaiado. Fixou-lhes o seu olhar repleto de emoções após tirar a sós todas as conclusões que entendeu necessárias. 

A mulher falou primeiro:

'a visita está para breve e não conseguirás impedir que ele entre; purifica o teu sangue ou o código será prontamente desvendado'

Depois o homem:

' em pouco tempo o teu corpo seguirá o caminho dos eleitos, lembra-te das premonições passadas e do caminho que fizeste até aqui, só assim entenderás e tomarás consciência plena do teu lugar na revolução que aí vem'

Ficou a olhar de frente para eles, pensando nos seus sonhos e na estranha realidade que se lhe deparava. Em silêncio seguiu de novo caminho. O casal seguiu em direcção oposta, até ser engolido pelo horizonte.

Entrou na cidade das respostas decisivas e deu-se conta que as ruas estavam cheias de seres a praticar alegremente os sete pecados mortais. Passou incólume por entre essa horda de pecadores sem remissão até dar de caras com a revelação, como se uma luz repentina abrisse caminho por entre os condenados.

Prometeu a si mesmo não ceder um momento que fosse da sua vontade própria. Que pensassem o que quisessem que ele jamais seria apanhado em contradição.

O Céu e o Inferno esperavam pelo dia das grandes revelações e ambos os líderes estavam a pôr em prática o seu plano. O que não calculavam, dentro da sua soberba omnipotente, era que sobre a influência da Lua ninguém conseguia ao certo aceder ao seu pensamento. Quando se deu conta deste poder imaginou-se invencível, porém o apelo da aventura era muito mais forte e embarcava na viagem rumo ao cofre dourado, cada vez mais perto das suas mãos.
À sua volta traficava-se de tudo um pouco, sem que houvesse alguma autoridade a regular as coisas. Haviam escravos humanos que se conformavam com a situação sendo naturalmente transaccionados como o seu irmão gado. Outro havia que para vender o seu produto obrigavam as suas peças a despirem-se e a servir de cobaias para as explicações do proprietário. Soube-lhe tudo mal, mas procurou seguir caminho sem se deter naquilo que ajustaria mais tarde.

Ao mesmo tempo que andava um estranho cortejo funerário acercou-se da zona onde estava.

057 época de sonho e agonia

Tinha outros planos, algo que passava longe das guerras entre o bem e o mal e disso deu-se conta ao avistar a cidade que a voz lhe tinha indicado.

Nada de brilhante no horizonte, porém nada que fizesse prever ser aquele o templo maior dos oportunistas. parou por breves instantes e deu-se conta que todas as suas memórias eram fruto de alguma entidade que tinha colocado a sua alma naquele corpo não há muito tempo. Quis, no entanto, continuar a acreditar nas memórias do ocupante anterior, cuja alma havia sido enviada directamente para o fosso mais fundo do Inferno, ficando à guarda pessoal do secretário pessoal de Lúcifer.

Eram tempos de sonho e agonia, em que o improvável se confundia com a realidade fantasiosa. Era tempo de seguir e avistou uma Igreja, isolada, no meio do campo verdejante a perder de vista. Atraído pela invulgar descoberta pôs-se a caminho, sentindo uma atracção irresistível pelo que pensava poder vir a encontrar.
Chegado à porta parou, voltou-se para trás e viu as labaredas cada vez mais altas de um fogo que se acercava de forma assustadora. Abriu a porta e entrou. Quase ao mesmo tempo parou à sua frente um ser tapado com uma túnica castanha. Começou a vociferar coisas ininteligíveis e abraçou-o de repente.

O que começou por ser uma situação de puro conforto perante a ameaça exterior depressa se mudou para outra sessão de tortura indescritível. Os corpos emparelhados sangraram com cortes cirúrgicos, ao mesmo tempo que se fundiram.

Da mesma forma que veio se foi a dor e sentia-se como antes, apesar de pressentir que algo de maquiavélico estava para se soltar.

Entrou numa cidade em apoteose, repleta de cartazes a anunciar a reeleição do presidente da câmara. As ruas estava igualmente repletas de fanáticos que mais do que vibrar procuravam por vozes discordantes com o único intuito de as calar.

Sentiu-se perdido no meio daquela confusão mas lembrou-se da revelação que agora lhe corria no sangue buscando cumprir a sua missão com o mínimo de danos possíveis.

Escondido das vistas oficiais encontrava-se um casal que dialogava em voz quase imperceptível. Dirigiu-se a eles, movido por um impulso mais forte que a lógica que se lhe apresentava. Sem demorar muito tempo a passar entre a multidão, aquietou-se junto ao dito casal.

056 a terra sem vida

Ainda no ar apercebeu-se de um aglomerado de pessoas. Conseguia distinguir um ruído quase insuportável e braços no ar, apontando na sua direcção, como se fossem zombies desgovernados a babarem-se sem parar.

Antes que começassem a correr de encontro a si, aterrou num buraco fundo onde ficava abrigado dessas vistas indesejadas. Respirou fundo e deu-se conta de um pequeno charco repleto dum líquido vermelho que lhe parecia ser sangue. Apesar da estranheza do sucedido decidiu-se a sair dali, primeiro com algumas cautelas e depois correndo rapidamente para o primeiro descampado que lhe aparecesse. Podia então ver os corpos deambular num pranto de incalculáveis sons que prenunciavam algo de muito mau.

Sem que nada o fizesse prever viu-se rodeado de sal, que ia crescendo à sua volta como se fossem as partículas sobejantes das lágrimas sujas  de todos os que por ali se arrastavam.

Em poucos segundos ficou completamente tapado por sal. Começou a rodopiar sobre si mesmo descontrolado da sua vontade e o sal entranhou-se por completo no seu corpo, que, no entanto, não registava qualquer tipo de alteração.

Depois de consumir os sonhos negros em forma de lágrimas salgadas deu consigo num deserto sem fim à vista. Os que havia visto antes simplesmente desapareceram, ficando apenas uma melodia antiga que falava de olhar e esperar, pela eternidade. Numa terra sem vida, nasceu em definitivo o sentido de todos os sonhos que o haviam habitado antes. A realidade podia alterar-se de um momento para o outro mas tudo se estava a concretizar como se fosse uma profecia.

Após caminhar longas horas debaixo de um Sol escaldante e sem que conseguisse descortinar o segredo que o fazia voar, ajoelhou-se, na areia ardente e escutou uma prece vinda de um simples grão de areia, multiplicando-se pelos outros todos até o cercar, numa melodia de crescente desespero. Aquietou-se, porventura com medo, seguramente ansioso. A voz nascida da areia entrou dentro da sua alma e revelou-lhe a sua missão antes de se soltar pelo corpo e purificar a corrente sanguínea:

'Desta terra sem vida chegarás a uma cidade onde as pessoas se alimentam das fraquezas alheias. 
Seguirás o teu caminho sem hesitar um passo. Buscarás o cofre que contém o segredo para derrotar Lúcifer.
És o escolhido e nada pode ser feito para lutares contra os demónios, que se acercarão de ti. Ah deles nunca te livrarás!
Mas sempre que a tua alma se apoquente lembra-te que os anjos estão atentos a tudo o que se passa e por eles serás protegido quando a morte se afigurar a única saída possível.
Quando chegares à dita cidade, busca pela única casa que tem dupla cave. O teu instinto é infalível e se te deixares levar por ele alcançarás sempre tudo o que se te pede.'

Levantou-se e seguiu caminho até encontrar a tal cidade.

segunda-feira, 7 de março de 2011

055 coração esmagado

Pegou no carro e viajou de novo para o outro canto de um delírio que era a sua realidade. Nem anti-depressivos, nem bebidas energéticas para conseguir fazer o caminho sem que os olhos se fechassem. Queria a lucidez total para que soubesse o que era real ou imaginação.

Com a vida corrompida por dentro, seguiu caminho com a voz bem afinada e a cantar as paixões da adolescência à muito passada. Cerca de doze horas depois chegou ao destino, estacionando o carro atrás do Ajuntament. Atrás uma senhora, muito bem vestida, observava-o. Olhou para lá e ela foi-se aproximando. Um arrepio passou-lhe pela espinha e começou a andar até ao parquímetro. A senhora, absurdamente sexy parou atrás sussurrando algo. Ele virou-se e ficou a esperar algum tipo de reacção. Apenas teve tempo de lhe ver os iluminados olhos verdes. Caiu inanimado e só veio a acordar num quarto pequeno, decorado com cortinas vermelhas. Rogou uma praga aos céus e jurou que acabaria com aquele mundo fétido que o rodeava. 

Rasgou as cortinas e lançou-se da varanda, buscando a morte pouco mais abaixo. Por azar passava nesse mesmo instante uma carroça cheia de palha que lhe alongou a vida. Enfurecido entrou numa sex-shop e arrancou a orelha a um cliente que comprava artefactos sado-masoquistas para ser seviciado pela namorada. Sussurrou algo e cuspiu o pedaço de carne arrancado à força, enquanto o homem segurava no sexo endurecido da excitação da orelha desavinda com o seu corpo.

Fugiu rapidamente dali sem que conseguissem sequer ver quem ele era. Meteu-se no carro e fugiu. Os olhos irradiavam sangue e ao olhar para o espelho retrovisor não conseguia distinguir um horizonte de beleza e contemplação. 

O barulho ia aumentando provocando um estranho transe que lançava as pessoas para a beira de qualquer sítio perigoso. Ao mesmo tempo a terra começou a mover-se, engolindo tudo à medida que a tremideira aumentava. Voltou a olhar pelo espelho e via levantar-se atrás de si uma gigantesca nuvem de poeira, acompanhada por um ruído ensurdecedor e um forte odor a morte. Saiu do carro, mesmo sem o parar e mesmo com o seu impacto violento com o solo que o fez estatelar-se, levantou-se e seguiu, com algo branco a sair-lhe da perna ensanguentada.

Experimentou dar um salto e manteve-se no ar. Era a maneira de escapar a uma morte que, decididamente, não era algo que conseguisse concretizar.

Enquanto voava foi tomado por um sentimento de fúria desmedido que o levou a destruir tudo o que lhe aparecia pela frente, sem sequer pensar que esses actos poderiam ter consequências irreversíveis. Sentia-se invencível.

O coração batia descompassadamente e ao longe parecia que as coisas se acalmavam de novo.

domingo, 6 de março de 2011

054 a península delirante

A mulher deslumbrante ia abrindo caminho por entre as hordas de homens e mulheres excitados. Ao passar por alguém, este era acometido de demência instantânea, atacando quem lhe aparecesse à frente até nem os ossos lhe restarem.

Não foi preciso muito para que ali mesmo tivesse início uma pequena guerra cívil, onde a maldade de cada um era extrapolada muito para além do confronto físico. Os corpos despedaçados foram-se acumulando.

Ele ficou paralisado até ela chegar perto de si. Quando o alcançou despiu-o e fornicaram até à exaustão, enquanto o Apocalipse parecia tomar conta de todos à volta deles. Passado o tempo de se saciarem, fundiram-se, num processo absolutamente excruciante para ele que gritava sem parar sem que, no entanto, tentasse libertar-se.

Assim que terminou este processo, deu por si num carro, a caminho das praias. Ao seu lado estava de novo a namorada. Atrás as quatro filhas cantavam felizes um emaranhado de sons que se entranhava bem na alma.

Deixou de pensar no que era realidade ou fantasia. Sabia bem que elas nunca haviam estado ali e no entanto a realidade era aquela. Começou simplesmente a acreditar que a história dos sete demónios era verdade. Só isso explicava tanta e tão confusa reviravolta que o levava a tocar os extremos da península ibérica em sonho e realidade sensata e irracional ao mesmo tempo.

Dentro da sua tenebrosa lucidez deu-se conta que o que se passara antes fora a entrada de um demónio dentro de si. Sentia-se normal à mesma, mas a infalível intuição disse-lhe que algo estava profundamente errado. Poucos segundos depois teve um brutal acidente de carro, perdendo a consciência.

Ao acordar viu uma grande azáfama de médicos e enfermeiros. Ouvia falarem acerca de transfusões e da necessidade de entubar. Voltou a desmaiar. Tudo ficou completamente negro, não se lembraria de mais nada até voltar a acordar.

Lá fora dava-se uma revolução sangrenta, sempre contra a invasão das tropas americanas, cuja indústria de armamento decidira por sorteio ser a península ibérica o sítio ideal para despejarem as suas bombas excedentárias. Portugal, como quase sempre, era o elo mais fraco e entrariam por aí.

Os supostos senhores do mundo foram novamente surpreendidos com a resposta eficaz dos ibéricos não aliados de Madrid, que em segredo queria erradicar de vez toda e qualquer cultura que não fosse cem por cento castelhana. Essa surpreendente visão fê-lo despertar. 

sábado, 5 de março de 2011

053 viagem subitamente interrompida

Ao  largo do Tejo, entre Porto Brandão eo Estádio da Tapadinha deu-se um fenómeno curioso.

Ele sorria, do lado de Lisboa, como se viajasse nas consequências de uma qualquer dose de tempack, a nova droga da moda, imune a qualquer tipo de despistagem. Igualmente imune a essa espécie de felicidade artifical, formava-se um remoínho que levantava um fio fino de água que subia até à Ponte Tejo, parando no combóio que a atravessava. Olhou para cima e numa espiral de violência repentina uma nuvem negra ia tomando a forma de um tornado grau cinco, descendo até ao rio. Como já não sabia aquilo em que acreditar, pensou ser apenas uma violenta ilusão de óptica. Porém não se tratava de um pesadelo artísticamente elaborado pela sua mente inquieta.

Lembrando-se dos passos que dera no ar, concentrou-se e tentou repetir a façanha. Levantou voo, dirigindo-se desgovernado para dentro do fenómeno raro que o atraía como se fosse uma estranha forma de sedução onde voltaria a materializar todos os entes perdidos no dia anterior. Algo podia ser feito e estes novos poderes assim o demonstravam.

O combóio seguiu como se nada se tivesse passado. O fenómeno desapareceu tal como tinha aparecido. Já não haviam nuvens no céu e os remoínhos tinham-se evaporado.

Nem se havia tornado invísível, apenas seguiu até às portagens e mesmo na cabine 10 encontrou o motivo físico dessa estranha sedução que o fizera seguir pelos ares até encontrar uma mulher deslumbrante a receber dinheiro do condutor de um carro funerário. Um feixe de luz passou entre esses dois seres e o dito condutor seguiu desaparecendo no horizonte.

Ao mesmo tempo ele juntou uma pequena multidão, provocando uma manifestação espontânea que iria parar todo o trânsito, precisamente no momento em que se ia intensificar.

Era quase Natal, as gentes da cidade grande iam nos seus acessos de loucura induzida gastar os subsídios e esta era uma mensagem para parar, reflectir, meditar, fosse lá o que fosse desde que parassem.

Da mesma forma espontânea a mulher deslumbrante cruzou o seu olhar com ele. Saiu da cabine e provocou um alvoroço sem precedentes. Com muita calma dirigiu-se a ele, enquanto as suas ancas diabólicamente sedutoras excitavam todos os homens e mulheres até à loucura.

domingo, 23 de janeiro de 2011

052 nas horas de maior calor

Depois de uma noite agitada, despertou suado e à beira de um ataque de nervos. Sonhara uma existência normal que afinal não passava de mera fantasia. Quando os olhos se abriam as ideias sucediam-se em catadupa e a cabeça parecia explodir, o que até nem lhe parecia má ideia, não fossem as insuportáveis enxaquecas.

Estranhava o tesão que sentia perante a crueza dos factos e como a namorada não passava de um elaborado plano que o consumia, tinha que se masturbar para libertar qualquer energia negativa que possuísse. Não que se sentisse melhor, apenas um pouco mais aliviado do tesão que o angustiava.

Sem ser o costume que o assaltava todos os dias, resolveu tomar um banho de água gelada, aclarando as ideias que teimavam em suceder-se a um ritmo cada vez mais rápido. Deu um grito e deixou correr a água, como todos os humanos, uns mais que outros, foi-se habituando à ignóbil temperatura e deu-lhe um novo ataque de tesão sucedendo-se todas as mulheres com quem triunfalmente copulava dentro daquele chuveiro de magia. Até que caiu redondo no chão, vendo um suave fio de sangue a cair ao lado da sua cabeça. Pôs a mão no nariz e com o início da dor, apercebeu-se que era de lá que caía.

Levantou-se com dificuldade e podia ver o sangue claramente, porém este desaparecia no contacto com o chão. Fechou a água e saiu todo molhado da banheira. Limpou o vidro embaciado e olhou-se com atenção. Além da cara vermelha da água absurdamente quente, nada mais se passava.

O sangue parara de cair e do nada começou a cantar 'eu menti à saudade', fado injustamente obscuro com uma voz feminina deslumbrante e um acompanhamento musical como só se podia escutar naquele canto esquecido da península ibérica. Deu-se então conta que estava quase a bater com a cabeça no tecto. Sim os pés já só tocavam o ar, invisível para o absurdo dos humanos, para ele apenas mais uma de muitas matérias possíveis.

O calor tornava-se cada vez mais intenso e esta nova percepção das coisas levou-o a sorrir como nunca o havia feito. A paz agora sentida era algo absurdamente belo, como se dentro da sua existência se tivesse estabelecido uma nova vida. 

Voou até ao quarto e sem se dar conta, apareceu vestido. O mundo parecia ser só seu, com o vendaval de acontecimentos que se sucediam.

Entretanto estava preste a dar-se uma nova revelação.

sábado, 11 de dezembro de 2010

051 o louco impossível

De um momento para o outro a sua vida desmoronou-se. Abria e fechava os olhos não querendo acreditar no que lhe estava a acontecer. Já nem era uma questão de demónios escondidos no seu sub-consciente, mas a realidade desenhada em cores sombrias que levara ao brutal assassinato de todos os seus conhecidos, desde a família, à namorada e filhas, aos amigos e meros conhecidos.

Estava em casa envolto num oceano de sangue que lhe brotava do peito sem parar. Lá fora ouviam-se as sirenes e na televisão falava-se de uma chacina sem precedentes num  país pequeno junto ao Atlântico. Não, não era um simples pesadelo do qual pudesse acordar. A realidade mudou bruscamente e a loucura instalou-se no seu mundo de ideias feitas. Claro que havia de fazer parar o sangue de jorrar livremente do peito, travar as dores tenebrosas que lhe apanhavam a cabeça, serenar tudo e, quem sabe, acordar de novo como se não fosse nada. Mas era e ao mesmo tempo que ouvia a polícia a chegar ao seu apartamento, subiu ao sótão e rebentou com as telhas. Fugiu, completamente nu e ensanguentado. No desvario da situação tropeçou e caiu para a rua. Tudo ficou negro, não se conseguia mexer e a polícia fechava todas as possibilidades de escapar. Ninguém imaginaria que pudesse ter salvo um osso que fosse daquela queda aparatosa. Porém o pesadelo dos perseguidores transformou-se em realidade e deu-se um fenómeno meteorológico raro, com um temporal indescritível que alagou toda a zona em volta dos seus corpos, arrastando-os para parte incerta.

Horas depois acordou e o Sol brilhava, mais intensamente que nunca. Muito rapidamente pôs-se de pé, vestindo um fato impecável, com uma gravata de fino corte e uns sapatos de marca internacionalmente reconhecida, caminhava apressadamente rumo a algum sítio.

Esteve nesta azáfama algum tempo. Parou num quiosque e viu os jornais a anunciarem um suposto serial killer que desaparecera misteriosamente na noite passada, após ter deixado atrás de si um gigantesco rasto de sangue e corpos despedaçados. Seguiu, como se nada daquilo tivesse algo a ver consigo. Não tinha porque ao passar por um espelho não reconheceu a sua própria cara. Não se assustou, buscou um banco de jardim e sentou-se, inspirando profundamente para entender o porquê daquilo tudo.

Primeiro tirou a carteira, vasculhando os cartões e possíveis fotos. Viu apenas o cartão do trabalho e a carta de condução. O nome não condizia com o seu, apesar da cara ser a mesma. Aos poucos começou a entender que aquele passo de loucura era tão somente a possessão de outro corpo. O porquê já lhe havia sido explicado, era tempo de começar a entender.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

050 país de exílio

Se por acaso tivesse de voltar ao seu país, abdicando das conquistas efémeras ia ver apenas um futuro negro à sua frente, como se fosse uma doença e à sua espera estivesse o vírus da recaída. Não que vivesse no paraíso mas à medida que iam passando os dias sentia menos necessidade de voltar àquele modo de vida sem sabor e às pessoas que tinham pena da sua condição por detrás de um sorriso de circunstância. Aquilo que havia sido a fuga ao Inferno sem chamas estava de novo a transformar-se no regresso, como se fosse uma sina viver entre batalhas do que não gostava, nem sequer fazendo um pequeno esforço.

A relação com a namorada esfriara um pouco apesar dos intensos calores por quase nada. E voltando à estaca zero, nem calores nem frio, apenas um vazio que não deixaria ninguém preencher.

Era tempo de colocar-se de frente para a montanha, mesmo sem frio ou nuvens carregadas de desespero, apenas uma vista para o desejo de alcançar o topo do seu próprio mundo. Conseguia um sorriso e uma certa dose de alívio quando colocava o pensamento positivo e alguma resignação à frente do destino e das costumeiras fatalidades.

Agora que olhava para o Céu e já não se desgastava com as cinzas de fracassos passados, sempre podia ir de encontro ao ansiado momento de felicidade em que ela se acercou do seu corpo suado e o beijou com um amor desmedido. Nem parecia o primeiro beijo de alguém novo na sua vida, apenas a noção de que as suas reticências à permanência no país de exílio estava plenamente justificada com a simples existência daquele ser de uma generosidade sem limites.

Foi através dela que tomou contacto com um habitante da terra que lhe deu as notícias acerca do seu envolvimento na guerra que se travaria no anunciado Apocalipse. Pouco dado a especulações e a retratos dramáticos da sua própria pessoa, começou a ser tomado de assalto por pesadelos ainda mais envolventes que a sua vida de carne e osso. Afinal a sua deslocação não era fruto do acaso, bem como a progressiva surdez, presente na definição do seu carácter, primeiramente introvertido e depois cada vez mais anti-social.

Apesar de tudo dava-se ao natural trabalho de dar todo o conforto possível às filhas dela, em profunda revolução hormonal.

domingo, 28 de novembro de 2010

049 que farei deste silêncio?

Depois do banho tirou um cigarro e foi para a varanda, estava frio e chovia. À parte disso um silêncio sepulcral entre-cortado por uma ligeira brisa. Nada de estranho à vista e pôs-se a pensar em toda aquela confusão, como se não lhe bastasse o fracasso que estava a ser a sua adaptação a um meio ambiente que sentira o ideal para viver os seus últimos dias, fossem lá eles quando fossem. Não tinha com quem falar, era de noite, dia da semana e ninguém tinha tempo ou disposição para ouvir loucuras. Colocou a possibilidade de ir ao hospital mas rapidamente a abandonou apesar da fortíssima dor de cabeça. Voltou para dentro e tomou um comprimido para as dores enquanto fazia algo para comer. Passados 20 minutos estava em frente ao computador e a comer massa com queijo. Abrira também uma garrafa de vinho e bebia directamente pelo gargalo. É possível que na manhã seguinte nem se conseguisse levantar, mas tudo lhe soube muito bem e resolveu vestir-se para ir à rua. Apetecia-lhe o contacto com a chuva e andar, algo que fazia cada vez menos, mas fê-lo e não passou muito tempo até ter os pés assentes na calçada molhada. Sentia-se meio a cambalear, possivelmente a melhor ideia seria dormir outra vez, mas tinha que caminhar, descobrir o porquê daquele súbito silêncio que se apoderara dos projectos que tinha para a sua vida, da falta de vontade que tinha em ver de novo a montanha e inspirar-se com a sua majestosa presença, mas acima de tudo entender o porquê de ter que fazer um favor aos que o amavam, de se manter vivo. Era um fardo que começava a tornar-se demasiado pesado.

Após uma hora a andar e sabendo que já estava longe de casa resolveu parar, sentou-se num banco molhado, como os seus olhos já estavam à muito tempo. Se depois não tomasse as devidas precauções viria uma daquelas gripes loucas com consequências imprevisíveis. Logo se levantou tendo o silêncio como companhia. Seguiu pelas ruas desertas da cidade pequena, sentindo-se observado mas não vendo ninguém que desse substância aos seus temores. Sem ser um homem crente ou influenciável algo de muito forte se apoderou do seu sub-consciente, apressando-lhe o passo até à rua onde se via o apartamento das cortinas vermelhas. Por um instante pensou para si mesmo que até a alma venderia ao diabo se daí viesse a paz que lhe faltava.

048 estranha serenidade

Ficou parado algum tempo, parecia-lhe uma eternidade tal a força dos pensamentos quer lhe brotavam para fora do corpo em forma de imagens, mesmo diante de si, quase acreditando ser tudo palpável.

Na cama apenas e só a sua triste companhia. Teria que compartir esta espécie de desespero consigo próprio, capacitar-se que tudo não passava de um elaborado pesadelo. Sentia-se desamparado e nem no telemóvel pegou a pedir a presença da namorada. Ambos se distanciavam cada vez mais, criando apenas um mero hábito de companhia, onde antes existia amor.

Fechou os olhos, meditou profundamente naquilo que lhe trespassava a alma, tornando-se clara a sua missão naquele mundo à beira da perdição. Quase como que por instinto pediu a presença do seu anjo da guarda. Se ele existia, que se manifestasse que era hora de saber se podia ou não acreditar nessas coisas do sobrenatural. Quase instantaneamente sentiu uma ligeira brisa entrar dentro da cama e subir-lhe pelas costas. De um momento para o outro aclarou-se-lhe no espírito que tinha de seguir um plano definido de forma a encontrar o equilíbrio mental que o prepararia para o futuro. Sentiu-se estranhamente sereno, deitou-se de novo, que ainda era cedo para retomar a vida que estava certo nunca mais voltar a ser a mesma.

A serenidade com que levava a vida tinha os dias contados e sendo certo que o suicídio estava fora de questão, embora não o soubesse, algo de trágico podia estar para acontecer. Irael sentiu toda essa confusão e não fora uma entidade invisível quase que se podia dizer que podia começar o processo de reversão, deixando de ser um mero pesadelo para se tornar a realidade.

Despertou de novo sobressaltado, repetindo nomes de pessoas que nunca tinha visto na vida, numa língua em que não se entendia, como se na realidade estivesse possuído pelos seus próprios pesadelos. Levantou-se, despiu-se e foi tomar um banho de água quente, enquanto a cabeça latejava, suspirando pela presença da namorada e da sua necessidade infinita de orgasmos.

Mas não era de sexo que ele precisava, apenas um pouco de energia positiva que o fizesse regressar à normalidade, à insonsa mas preferível vida que tinha aquando dos olhos abertos e da consciência mais ou menos pesada.

sábado, 27 de novembro de 2010

047 noites de vigília

Identificado como líder da sagrada loucura, o peregrino seguia uma vida relativamente normal, cada vez mais longe de conhecidos, aproximando o coração de uma vontade acérrima de mudar a própria vontade de desaparecer. Sem saber o porquê lutava contra todas as ideias de oferecer a alma ao diabo por um pouco de paz, desconhecendo a presença de Irael que desempenhava o papel de alterar aquilo que Deus e o seu líder Lúcifer haviam acordado antes deste ser expulso do paraíso pelo próprio pai.

Sabendo da entrada do demónio no escolhido, Deus enviou o seu anjo da guarda para o proteger de alguma mudança de planos do seu inimigo de sangue, soltando-lhe a ira antes de tempo, levando tudo ao caos e destruição.

Foram noites de intensa vigília, em que a morte rondou o peregrino provocando-lhe uma angústia sem limites que não o deixava dormir em condições. Nesses momentos lembrava-se do conforto da namorada e abria os olhos inchados de dor, prontos para viver mais uma luta que terminasse com o final do dia, adormecendo de novo.

A cada dia que passava dormia um pouco menos, fruto da solidão que o acompanhava de novo, dos pesadelos e dores musculares que o faziam levantar-se de repente da cama, num desespero cada vez maior.

Apesar disso, sempre que saía de casa, conseguia encontrar alguma serenidade observando a neve, que caía, fora de tempo, vestindo a montanha de um branco augurador de um vazio que pressentia acercar-se da sua alma para não mais o abandonar.

Noutro sítio, bem longe da confusão instalada na cabeça peregrina, alguns casais entravam em combustão, logo após a mulher entrar numa sessão de orgasmos múltiplos. Paralisavam no momento em que começava a lenta assadura a que era sujeito o seu corpo. As lágrimas caíam e Ervidel ia tomando forma humana, fortalecendo a matéria no último suspiro dos carbonizados.

Aterrorizados pelo sucedido, alguns deixaram-se levar pelas mensagens do Apocalipse, vendo os imensos rios de sangue que cobririam para sempre os pecados cometidos na fronteira ténue entre a razão e a demência. Enquanto isso o corpo do peregrino ia consolidando a sua relação com alguns dos sobreviventes à chacina de um ser infernal.

Despertou suado. Tudo havia sido um mero pesadelo. Como seria possível crer numa história de demónios e num tal peregrino que andava perdido em angústias mesquinhas, em vez de se consciencializar que era a chave da salvação da humanidade?

046 mortais e submissos

Enquanto isso o peregrino viajava, com a perigosa sensação de ser observado com toda a atenção no meio da multidão da grande cidade onde ia tratar de assuntos mundanos. Nem apertar a mão da sua namorada lhe dava alguma sensação de conforto, apesar de dominar o demónio real que tinha dentro de si. Afligia-o ainda a horda de transeuntes que deambulavam pelas ruas, sempre com o mesmo destino e expressão de ausência prolongada dos corpos em lenta decomposição, repletos dos infinitos medos de quem está sujeito a um ataque de coração sem se dar conta do que lhe passou.

Eram estes os próximos alvos dos mortos que regressavam ao contacto com o ar dos humanos, os mortais e submissos desenvolvidos mentais da civilização dourada que bebe de todas as influências externas à sua identidade.

E foi numa destas situações de indiferença que se deu um fenómeno raro que quase matava o peregrino. Não fosse Irael e a absoluta necessidade de manter vivo o receptáculo em que se instalara comodamente e a lava incandescente que apareceu do nada, chacinando os transeuntes desnecessários a alguma entidade invisível com poderes para dispor dos destinos individuais, quase o levava.

Tal como apareceu a lava desapareceu. Nem sequer ficou um vestígio da passagem do fenómeno, para que os jornalistas pudessem levar algo que fizesse subir as vendas dos jornais moribundos. E Lúcifer, narcisista por natureza, dava imensa importância a audiências pelo que a fúria destruidora não se fez esperar, caindo um avião militar carregado de engenhos explosivos programados para explodir em pleno coração de uma cidade grande em dia de greve geral e manifestações acirradas pela crise constante a que os seus demónios nos governos faziam passar os povos. 

Assim foi feito e o mal  não podia ser mais encoberto, gerando a famosa onda de solidariedade em torno das vítimas, abrindo-se contas bancárias de solidariedade e especulando-se que o terrorismo havia atingido o seu auge com esta operação, obra do demónio mais pérfido dos Infernos. Foi remédio santo para subirem as audiências e o lucro subjacente às mesmas dos mortais e submissos ao senhor das trevas. Mas algo mais lhes estaria destinado no fim dos dias. Lúcifer era feliz de todas as maneiras.

A uma distância relativamente curta de Lúcifer via-se uma espécie de tormenta a aproximar-se. O ruído aumentava de intensidade e o Céu enegreceu-se com rapidez, como que engolindo o Sol ficando a Terra entregue às naturais trevas provocadas pelos humanos. Ao mesmo tempo escutavam-se gemidos entre-cortados com gritos lancinantes de dor. Os mortos de todos os cemitérios levantavam-se das suas campas e buscavam a chacina necessária para alcançarem a paz eterna a que tinham direito.

domingo, 14 de novembro de 2010

045 mortos intranquilos

Muitas eram as casas onde se deixara de dormir com tranquilidade. Era cada vez mais frequente ver homens em pijama e mulheres em camisa de noite, ambos na rua, com os olhos marejados de lágrimas vindas de um pesadelo que os impedia de dormir.

Tudo começou num último dia de Verão, em que a chuva torrencial trouxe consigo todas as almas penadas desde o tempo em que o homem se tornou incapaz de alcançar a fantasia narcisista do Eu absoluto com a extracção de uma costela decisiva, da qual dizem ter nascido a mulher. Qualquer laço familiar era o suficiente para uma dessas almas buscar o elemento familiar mais adequado para levarem a cabo o fim total da sua tormenta. Antes viajassem no dorso de um cavalo majestoso e fossem lançados no abismo sem retorno da droga e dos suplícios.

Não muito longe das cidades de vivos intranquilos haviam terras remexidas onde se abrigavam os corpos em decomposição. Porém, de forma desordenada, lançando gritos de dor, esses mesmos mortos saíam do seu suposto repouso, uns mais decompostos que os outros, todos lançando veneno para o ar e caminhando com a direcção própria dos sem coração, rumo ao destino incerto dos que os chamaram o esquecimento eterno.

A morte tem um motivo de ser e qualquer coisa que a perturbe, interrompendo-a e injectando-lhe vida é punição a dobrar., mesmo que seja o anjo Lúcifer o culpado de todos os males da humanidade.

Cada vez havia mais gente na rua, em puro desespero, experimentando uma sensação de morte, sem que o coração parasse nem a luz ao fundo do túnel se revelasse. Os mortos saíram dos seus recantos e chegaram rapidamente, em absurda agonia à procura do verdadeiro descanso, pondo à prova todas as melhores capacidades do escudo protector de cada um que encontravam pelo caminho. Não vertiam lágrimas dos seus  corpos secos, apenas vomitavam os vermes infectados pelo ar, atingindo cada um que manifestasse a mais pequena ponta de qualquer um dos pecados mortais.

Foi um desfilar intenso de recém-falecidos a juntarem-se à horda de extenuados condenados, mas também uma verdadeira  surpresa quando os vermes simplesmente se diluíam aos pés de seres absolutamente impolutos. Afinal naquela constelação de gente com premonições de morte e de dor, a própria morte não conseguia alterar o estado das coisas levando novos adeptos para ajudar o senhor das profundezas do Inferno na sua extravagante missão de ser ainda mais criativo que os humanos na destruição do mundo.

sábado, 13 de novembro de 2010

044 um profundo silêncio

De nada valia um profundo auto-controle se havia a capacidade de abrir uma brecha nessa muralha aparentemente intransponível. Porém, o demónio Irael descansava dentro do coração do peregrino, zelando pelo seu bom funcionamento, aconchegando a sua destruidora influência ao sangue, para sempre contaminado.

Apenas um profundo silêncio se abateu sobre a sua vizinhança, como se pressentissem a chegada do anti-Cristo que os exterminaria no dia do juízo final. Pouca gente acreditava que o mundo devia caminhar para a paz total, porventura com o desejo infantil de não absorver a maldade, existência física e demais coisas que faziam o grande Satã saltar de orgulho, enquanto a viagem ao Inferno se ia encurtando demasiado.

Estavam em silêncio mas era impossível a paz. As cortinas vermelhas escondiam um segredo atroz que apenas era do conhecimento de Irael, firmemente instalado em cada célula do coração do peregrino, esperando pelo momento final em que toda a verdade seria revelada.

Ajeitou-se a cama e estando sozinho teve uma forte sensação de que alguém o acariciava. Algo lhe perturbava a olímpica calma, o auto-controle e os pesadelos, mais cedo ou mais tarde saltariam para o exterior do seu corpo.

Numa noite calma em que mais uma vez ficou a sós, teve uma visão apocalíptica do mundo, em que se via no topo de uma montanha, vendo uma espiral de fogo em crescendo destruindo tudo à sua passagem. Estranhava o facto de não se ouvir absolutamente nada, sobretudo quando os espíritos se tornavam visíveis, mesmo após a morte do seu invólucro. Não lhe era possível mover-se apesar dos olhos captarem o Apocalipse, que pressentia ser apenas o início de uma tormenta sem precedentes.

Ele que não fumava, acendeu um cigarro, vindo do nada assim como a chama que lhe avivava de novo a paz de espírito. Quase de repente sentiu um golpe profundo nas entranhas, uma dor dilacerante e o seu espírito a querer desprender-se. Foi neste ponto que acordou sobressaltado, sentou-se na cama pondo a mão direita no seu peito. Não havia dúvidas que ainda estava vivo e dissiparam-se as que ainda podiam existir acerca da existência de fantasmas quando sentiu sair pelos poros uma sonora gargalhada que lhe dilacerou os músculos dos braços e das pernas. Depois de se acalmar, tudo mergulhou de novo num profundo silêncio.

domingo, 7 de novembro de 2010

043 os passos do caminhante solitário

Num mundo alucinado, onde pelo mero respirar se era tomado de assalto por um anjo ou demónio, ser peregrino da sagrada loucura era um fardo de consequências imprevisíveis se por acaso se desse uma nova época glaciar, proveniente do aquecimento global que por sua vez provocaria um aumento brutal do nível das águas, devastando tudo e todos até a ordem natural das coisas se repor.

Era necessário prever os passos solitários de um homem destroçado pela razão, apesar da força indomável de todas as suas emoções. Havia que tomar cuidado com a libertação de energia de maneira a não desequilibrar ainda mais o estado caótico de um mundo perdido.

Essas emoções não passaram despercebidas ao senhor das trevas que enviara para o mundo dos homens uma entidade que se alimentava  da ira humana no seu estado mais puro. Havia que ceder ao pecado capital para que o demónio se manifestasse e assim entrasse num receptáculo. Porém só o grande líder, que ainda não sabia que o era, lhe interessava e a impaciência pelo ataque mais primitivo da fúria era cada vez mais intensa.

Apesar de estar prevista a dita fatalidade, não havia forma de adivinhar o pensamento daquele ser banal, de uma vulgaridade quase atroz quando se pensava na importância que viria a ter, mas a imaginação do líder das trevas era algo de pérfido, como não podia ser de outra maneira e deu a volta à questão.

Numa das suas caminhadas deparou-se com uma situação intolerável, algo que possivelmente faria desaparecer a sua proverbial calma. Um fulano de boa aparência entrava dentro do seu carro, sem sequer se dar conta faz marcha-atrás e atropela uma criança. Pára, sai do carro, olha para debaixo deste e vê o petiz a querer levantar-se, como se por um milagre não lhe tivesse atingido nada. Sem que nada o previsse volta a entrar no carro e acelera a fundo. Esmaga uma perna ao miúdo. Volta a  sair e bate com a cabeça do miúdo violentamente contra o chão. 

Um multidão que se foi juntando ali perde as estribeiras e lança-se a ele que fica imóvel entregando-se ao destino mais que provável. 

O peregrino interrompe a sua caminhada e entrega-se à orgia de violência em crescente apoteose. Sem que ninguém se dê conta o miúdo levanta-se e toca-lhe. O demónio entra dentro do peregrino, sem qualquer alarido, sem sequer poder manifestar-se, até conseguir juntar os outros seis diabos junto ao cofre dos enigmas dourados. Um segredo de tal maneira bem guardado que apenas o anjo da guarda do peregrino, designado por Deus, sabe o caminho.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

042 cais da infância

Atrás da porta estava um desejo tornado realidade e os olhos iluminados da mãe não faziam crescer mais ansiedade na família, quase recuperada do susto que ela lhes havia dado. O ser precioso que dormia junto ao seu peito tinha cabelo farto e a cara enrubescida do anterior calor do ventre materno ia sendo substituída por uma tranquila expressão imbuída de paz, muita união e sorrisos de esclarecedora felicidade. Uma mãe que se preze não consegue ver outra coisa num filho recém-nascido.

Os primeiros anos foram de manifesta concretização de sonhos, como se o dia apenas seguisse o rumo natural até à rua onde a vizinhança sempre se perguntava porque estava aquela janela sempre iluminada. Era-lhes explicado, mas no dia seguinte voltava-se ao mesmo e assim consecutivamente, ate à náusea.

Após alguns anos de insistente loucura, a pergunta deixou de ser feita porque a luz se apagou e a janela se tornou indistinta. O mundo daquela pequena rua voltava à normalidade e ele passava a ir à escola.

A professora sempre lhe açoitava o rabo, não por ele não saber ou evitar participação activa, mas tão somente para descarregar as frustrações da falta de infância, razão pela qual era venerada pelos grupos de pais, que advogavam uma palmada no rabo que a alma também progride, não apenas o corpo ou muito menos um efémero orgasmo.

Cresceu entre palmadas e promessas, sem grandes conversas e aninhado nas histórias mirabolantes que lia lá nos confins de sua casa, onde frequentemente havia uma porta que dava a outra dimensão. Foi num desses delírios que descobriu um mapa, já antigo, acompanhado por algumas anotações pouco inteligíveis. A espaços conseguia decifrar o seu nome, mas o raciocínio bloqueava para dar lugar a um branco espesso que impedia de ver mais além.

Experimentava uma sensação de pura dor, mas era absolutamente irresistível a tentação de chegar mais longe, alcançando o zénite das emoções, algo apenas possível pelas dicotomias de personalidades distintas sem que ao princípio conseguisse sequer dar-se conta disso.

O equilíbrio surgiria mais tarde quando começou a sonhar com uma dimensão muito para além da mera existência física. A vida seguia normal durante o dia, com as vitórias e fracassos costumeiros de um ser banal, mas assim que fechava os olhos desvendava-se mais uma peça do seu intrincável puzzle pessoal.

sábado, 18 de setembro de 2010

041 peregrinos da sagrada loucura

Em nome da sagrada loucura saíram todos os crentes num mundo livre de conceitos a uma rua obscura porventura cheia dos demónios que urgia defrontar. Assim nasceu um movimento espontâneo em que se tornou o líder espiritual, assim designado pelo grande mestre do eterno desassossego, livre das grilhetas da imbecilidade reinante desde tempos imemoriais.

Depressa se fez sentir a repressão contra o crescente clima de optimismo, lucros exageradamente altos de gente anti-sistema, reprodução de uma nova bíblia devidamente financiada por esses mesmos novos ricos, em delirante crescimento.

Sem se saber bem porquê, apenas com a paranóia instalada, referendou-se o sim à pena de morte em praça pública com posterior transmissão televisiva em horário nobre.

Ao mesmo tempo que espalhavam a loucura da vontade própria iam desacreditando, um por um, todos os opositores às aspirações de uma vida normal, sem o fardo pesado do trabalho por conta de outrem e da sua função financiadora do lazer pecaminoso da ladroagem directiva. As baixas tornavam-se evidentes nos dois lados e apenas proporcionou o aparecimento de líderes ainda mais esquizofrénicos que os do costume, o que não era, de todo, o objectivo pretendido.

E ele seguia tranquilo na sua nova missão de desconhecido líder de uma nova ordem universal que tinha firmes opositores vindos das profundezas do Inferno para atormentar as almas opositoras dos desígnios previsíveis de Lúcifer.

Tranquilidade, assim vinda do nada era o melhor e mais eficaz antídoto para as calamidades que se multiplicavam a um ritmo cada vez mais alucinado.

Vivia então na fronteira da insanidade mental, rodeado de seres abjectos, cegados pela ira que lhes era injectada directamente na alma e expirada em corpos degradantes, provocando rápido contágio por cada átomo correspondente que os cercava. Era inevitável uma qualquer brecha no espaço que dividia os mundos paralelos, tanto os corpóreos como os outros que tinham os mais variados tipos de versões segundo aquilo em que alguns achavam que todos deviam acreditar.

No meio dos peregrinos da sagrada loucura, algo de estranho se passava, como se devessem prestar súbita vassalagem a algum anjo orientador. Porém era inviável o sentimento de submissão num dos abençoados loucos, que agia com distinta anormalidade dos demais.

Dizia a profecia do quinto patamar do cofre dourado que um demónio continha no sangue do seu receptáculo carnal o código que permitiria o acesso ao sexto e penúltimo patamar do objecto que alteraria para sempre o destino da humanidade. Todos o negavam, cada vez com mais veemência e a cada mentira que crescia Deniel aumentava o seu poder terreno, disfarçado de peregrino.