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segunda-feira, 19 de julho de 2010

030 surpreendentes ofícios

Arturo é o seu nome, homem de surpreendentes ofícios. Largou uma vida economicamente viável por um destino mais próximo da felicidade, mesmo que isso implicasse  contar todos os centavos e a possibilidade de ter de roubar para sustentar a sua família.

Claro que as cortinas vermelhas, a certa altura da sua vida lhe deram uma visão clara do significado dos sonhos que de certa maneira, algo negra, quase o atiraram para uma pira funerária, por via do suicídio.

Porém, apesar de não perder dinheiro nos jogos de azar e ainda assim ter o cartão de crédito usado no limite, foi-lhe fácil juntar o dinheiro que precisava para a viagem da sua vida, sempre com o pensamento posto na mulher que lhe daria o prazer de ter uma vida normal, até que a morte os separasse. Como disso nunca teve dúvidas, foi com naturalidade que lhe apareceu na vida a Flor, mulher de muitas qualidades, mal casada, com uma erva daninha que lhe ia obliterando a vontade de ser feliz, afogando as suas mágoas em cerveja barata e nas noitadas de jogos de cartas com as amigas, enquanto as quatro filhas iam crescendo de forma acelerada, enchendo-lhe a paciência, finita.

Curiosamente conheceram-se no bar para onde ele foi trabalhar, ela ia com outra rapariga e nada os faria prever o vendaval de emoções que esse dia inócuo veio a revelar. Ela bebeu um café, enquanto ele tentava saber de um quarto para se hospedar. Ainda nesse dia foi-lhe apresentada uma rapariga de nome Elena que nunca chegou muito a saber o que fazia ou de onde vinha, apenas se aproveitava dele com histórias mirabolantes a que ele teve de colocar um ponto final para não correr o risco de ser preso.

A pouco mais de quinhentos metros vivia Flor e as suas quatro rosas de um canteiro que precisava ser melhor estimado. Por um acaso do destino e apesar das noites mal dormidas Arturo tinha sempre a companhia de Flor pela manhã, fosse no autocarro ou a pé.

O tempo era instável, assim como Arturo aguardava pacientemente por aquilo que sabia ir acontecer, embora não soubesse com quem. Flor descobriu nele o marido perdido em noites consecutivas de bebedeira, até que se foi de vez trabalhar para outra cidade. Flor aproximou-se de Arturo como que espantando fantasmas de uma vida mal resolvida.

No meio do Verão quente, Arturo mudou para uma nova casa e por detrás das cortinas vermelhas amou Flor como nunca havia amado ninguém!

029 gerações de poetas obscuros

Aquele sonho de um dia publicar fora finalmente concretizado. Claro que todos vaticinavam desgraça, à partida porque não era conhecido, urgia trabalhar a coisa, só esse trabalho e tirar as pessoas do seu comodismo crónico tirava as hipóteses de venda imediata massiva.

Ficava por plantar a árvore e fazer nascer um filho. E assim regressava ao presente, em que a descrença continuava a ser um ponto assente na sua vida, ou talvez fosse apenas um problema da sua cabeça, pensar que ninguém queria saber dele, era apenas o medo de cair na mais absoluta solidão. Sim, aquela solidão cheia de gente, palavras vãs e sentidos ainda mais ocos. Quando se juntava o Verão à questão e o suor abundava deixando os odores que o enojavam a cirandar por cada canto onde se encostava, era tempo de acreditar que pertencia mesmo a uma geração de poetas obscuros, que se juntava na glória efémera de uma qualquer antologia que ficava para a memória num vídeo colocado no youtube e ainda mais na conta bancária do comerciante coordenador da mesma. Nem se tratava de vergonha o facto de ter deixado de divulgar algo que apenas devia de ser separado da sua pessoa. E quando lhe contavam aquelas histórias de fulanas que se apaixonavam por assassinos famosos, abrindo toda a sua intimidade ao desafio da imaginária possibilidade de passar a ser a vitima final de algum ser abominável aos olhos da sociedade, que estimula, protege e os negligencia. Claro que fazer parte de tal clube só se tornava possível pelo desleixo a que fora votado esse dom, tardiamente estimulado, desprezado e depois colocado num limbo aparentemente sem saída, apenas porque buscava pela vida normal de um humano anónimo.

Ainda assim o desejo habitava-o como se entre cada batida do coração estivesse a graça de um Deus que até lhe dava jeito que existisse, apenas para pôr ordem no caos interno que era a relação consigo próprio e que distorcia a realidade circundante.

Esses eram dias de profunda amargura, em que nem o desejo carnal ou uma moca bem induzida faziam esquecer, esse desejo premente de fazer parar o sangue que corria nas veias. Pelo menos assumira perante os seus desejos mais íntimos aquilo que queria, apenas era necessário manter um segredo, o que a não acontecer provocaria a sua queda pela eternidade se voltasse a renascer igual ao que era nesta infindável encarnação.

Ela decerto que o entenderia melhor se falassem a mesma língua, mas a maldita tristeza era sempre algo de muito superior a qualquer norma de felicidade imposta ao estilo de vida de cada um.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

028 lugares proibidos da miséria

O namoro começou bem. Cedo deu lugar aos sorrisos e ao sexo desenfreado que o seu corpo já esquecera. O tempo, recomporia tudo, sobretudo o desejo de amar e ser amado.

Foi atrás das cortinas vermelhas que se deram algumas das primeiras manifestações de amor mútuo, apesar da natural indefinição e do teatro provocado por um paneleiro assumido que tentava torná-lo num pérfido matador de lares compostos de costumes, não de amor. Mas ele mostrou bem o seu verdadeiro carácter, mesmo mentindo, alcançando a necessária indiferença de outra corja de frustrados que tinham como desporto favorito as bebedeiras diárias e o espancamento das suas mulheres, por amor, como se a miséria provocada por esses actos cobardes fosse afinal um acto necessário e normal. 

Apesar da submissão aparente dela, cada dia novo foi a constatação de que aquele pedaço de paraíso onde se amavam estava vedado aos fantasmas residentes em almas para quem amar fazia parte de ser proprietário e não de partilhar.

A força do amor foi-se manifestando naturalmente e o sonho sempre adiado de ter um filho tomara outra forma com a presença daquela super mãe, repleta de tantas fraquezas que a tornavam ainda mais bela de coração. Decerto que nesses lugares proibidos da miséria não se esgotaria um amor sempre em fase crescente, muito menos se esvairia o desejo e a força de vontade de lá sair rumo ao conforto e bem-estar que ele gostava de se proporcionar e a todos os que o rodeavam.

A mulher da sua vida houvera passado tempos de difícil digestão, com as suas memórias tristes que, ainda assim, não lhe impediam o sorriso ao entrar em casa dele. Um verdadeiro bálsamo depois de chegar  cansado de um trabalho para o qual se sentia envelhecido antes do tempo. E, pela mesma razão que sentia a chama de um amor que o atormentara sem sequer o habitar, tornava-se imperioso deixar de perder tempo com problemas que não eram mais os seus.

O mundo estava cada vez mais apodrecido, mas ainda se estava a tempo de colocar em prática o egoísmo necessário para praticar a ansiada vida normal.

No alto de uma montanha onde se escondera de uma vida simples e que tanto desejava, via apenas um silêncio que agora sabia ser de ouro.

027 contos que nunca escreverias

Certo dia foi confrontado com algumas folhas dispersas que versavam acerca de um período conturbado em que mantinha uma relação intima com o conteúdo das garrafas de whisky, quase sempre terminadas por aguadas dores de cabeça e maremotos estomacais dos quais guardava poucas memórias. O rubor nas faces não indiciava vergonha, apenas uma súbita raiva pelo vil manuseamento daquelas folhas preciosas onde haviam penetrado com intenso ardor os seus pensamentos. Preferia sentir a casa vazia de críticas a ser confundido com uma realidade baseada em oníricas sensações vividas por um personagem que não lhe dera para desenvolver adequadamente. Pouco depois desse confronto subia-lhe mais sangue à cabeça e uma profunda raiva, consubstanciada com um demoníaco desprezo que o punha a gritar até sentir os pulmões a pedirem asilo do próprio corpo. 

Eram momentos em que a ideia de morte se sobrepunha às mesquinhas vontades de quem se dedicava a maldizer algo de que se afastara de livre vontade. Pegava então numa caneta e escrevia desalmadamente até a mão lhe doer, como se fosse um acto masturbatório que o aliviava temporariamente. Depois copiava para o papel as dores saídas de lágrimas abandonadas a um vento raro que parecia ter vontade própria e ambições de destruição da harmonia. Encostava-se ao sofá tecnologicamente avançado e delirava com a promiscuidade mantida com as letras que se amontoavam em cadernos negros, de magia, sem segredos. Fechando os olhos poderia imaginar os cenários pretendidos e encostar a imaginação ao infinito, colhendo a paz ansiada directamente na sanita, colhendo amargas revelações que apenas tinham o condão de precisar que a sua imaginação se regia por comprimidos que lhe alteravam a percepção, deixando a nu os monstros escondidos nos pesadelos, cada vez mais frequentes. Era comum que depois de algumas centenas de palavras as pálpebras pesassem e as vértebras cervicais se queixassem admitindo a possibilidade de ser mais um no bloco operatório daquele hospital em que juntavam operados à coluna e à cabeça, com a respectiva loucura adjacente para os que necessitavam de repouso absoluto. Era mais provável levantar-se de novo da cama e ver uma daquelas histórias improváveis da televisão.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

026 longínquas vidas

O passado era uma espécie de castigo que o impedia de abraçar qualquer espécie de relacionamento. Foi assim durante grande parte da vida em que devia ter-se dedicado a mais bebedeiras e momentos sóbrios com maior qualidade. Certo era que em cada momento que se afigurava como presente dava graças por poder compartilhar a vida com uma mulher a quem não prestara a devida atenção no inicio de uma relação cada vez mais sem fim à vista. 

Quando se afastava desse presente era como que o fantasma de longínquas vidas, que lhe haviam moldado a alma para esta encarnação, voltassem sobre a forma de um pesadelo em que um homem sem cara se deixava cair tranquilamente sobre um manto de pregos ardentes que lhe arrancavam a pele sem o fazer desfalecer. Claro que acordava suado e com vontade de fugir da cama vazia, dos tormentos por que passava até o despertador tocar.

O que o preocupava mais nem era ficar desempregado, apenas não poder aplicar num herdeiro do seu sangue alguma da sua vontade de viver num mundo menos negro, como se assim fosse mais fácil aceitar a rotina imposta pelo coração.

Porém as sementes plantadas estavam dinamitadas e as ervas daninhas cresceriam sempre mais que a natural composição de flores que apenas seriam uma modesta falsificação de um projecto de vida a que faltaria sempre o elemento surpresa, propositadamente esquecido com a desculpa de resolver problemas que ficariam sempre para além de uma vida incompleta. E seria delicioso saber o composto de uma vida completa, como se o auge da contemplação humana lograsse ultrapassar a sua maior invenção: o divino.

Apetecia beber um cocktail, daqueles bem misturados por mãos experientes, que depois escorregaria garganta abaixo da mesma forma que algumas mulheres iluminadas têm os seus orgasmos. Sorria diante desses feitos de despudor total, e ainda perante a máquina infernal dos distribuidores de almas pelos diversos cantos aos quais pertenceriam, por decreto ou mistificação consubstanciada, as moedas frequentemente abandonadas na caixinha dos pobres da paróquia mais pequena do mundo cuja localização só ele conhecia.

Ao abraçar as memórias que o ligavam a um passado para além das cortinas vermelhas, que o separavam do presente, sentia as vidas em si a palpitarem de desejo por algo diferente e desconhecido.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

025 as cidades crescem

No meio de tantos gemidos, orgasmos e intensa vontade de copular, ele ia vivendo a sua vida. Decerto que o presidente da junta de freguesia aprovava o desejado acto, sobretudo se dele resultasse mais um natural da terra. A bonificação era assaz apetitosa e não era difícil imaginar as orgias secretas entre alguns dos pares mais bonitos, sem preocupações de cornos ou posterior cor da cara do filho. 

Tendo-lhe chegado aos ouvidos este plano de crescimento e ciente da sua capacidade reprodutora diante de algumas fêmeas insaciáveis, nem se preocupou com a possibilidade de ser pai solteiro, incógnito ou posteriormente acusado pelo famoso teste de ADN. Podia dar-se o caso de um filho ter um pai maricas apenas porque a mãe passara a ter asco aos homens e assim podiam educá-lo sem ter de empinocar. Umas vezes a ideia agradava-lhe, mas quase sempre se deprimia perante o espectro de ter um herdeiro que nem sequer era reconhecido como seu, apesar de o ter parido primeiro e um dos seus milhares de espermatozóides ter vencido sozinho a batalha de entrar dentro do óvulo.

Porém, depois de fantasiar tudo o que se lembrava, , voltava sereno à realidade, abraçando a namorada por quem sentia algo bem mais profundo que uma mera paixoneta ovular. Tudo isso somado à responsabilidade pelas filhas e o prazer que a ele lhe dava ter uma mulher assim, fazia o desejo de traição ser um mero devaneio.

Era possível que tantas casas vazias viessem a ser ocupadas depois de posta em prática a mais radical medida anti-crise. Decerto que os bebés voltariam a chorar apenas por nascerem e que os parques infantis voltariam a a ser motivo de agendamento de brincadeira com o afluxo desmesurado de petizes. Ao menos que esse crescimento servisse para renovar o sangue estagnado que atrofiava os pensamentos de adultos mal-amados.

Fosse ou não por decreto ele tinha esse desejo intenso da paternidade, atingindo assim o patamar mais alto da sua vida (inclassificável): uma vida normal.

Ainda assim seguia coberto por um manto negro de dúvidas pelas ruas envelhecidas de uma cidade mal cuidada. Houvessem essas crianças anunciadas no decreto e com uma manifestação por elas criada a vida se agigantasse, que a pequenez provocada pela falta de motivos racionais para sorrir, chorar ou simplesmente berrar era algo a que todos pareciam condenados.

Ao sentir as cidades crescerem os adultos deviam infantilizar os seus propósitos, prometer nunca mais crescer a sua perfídia e assim deixar o mundo livre dos caos climático, alarve vermelho e desejo de morrer a dormir. Não, essa pressão de crescimento nunca fora benéfica e assim ele não conseguiria ver o mundo com as cores que ele tem, o verdadeiro mal eram as pessoas refugiadas no negro absoluto da cegueira, o cérebro recusava-se a pensar e a aceitar novas propostas de mudança.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

024 hoje escrevo e odeio

As noites em claro são memórias más, mais cedo ou mais tarde a cabeça começa a funcionar com erros e o pensamento desmorona-se ao ponto de aquilo que para qualquer um é iluminado não passar de trevas sem solução para quem se sente no fundo do poço.

Claro que podia ser uma noite de São João numa praia junto ao Mediterrâneo, com uma pessoa do sexo oposto, preferencialmente nua e o corpo cheio de pica para foder. Dessa praia apenas tinha as memórias caseiras, do carro antigo, onde se arriscava a uma prisão por conduta obscena, muito embora apenas se lembre da fulana que falava em matar-se após um orgasmo, chorando de saudades pela picha que lhe subia mais acima do umbigo.

Subia-lhe à cabeça visitar o passado e encher essa cretina de esperma na boca, apenas para que se calasse. Pensava nisto e sorria, a sua mente ainda conservava alguma perversão que lhe proporcionava erecções despropositadas seguidas dos naturais embaraços das senhoras de idade que supostamente já não teriam disso em casa. Porém não era consumido pela vontade de se acalmar pela via da masturbação, até porque, convém recordar, essa coisa da morte no momento pós-orgasmo tinha passado à história. Falava-se de vida, de projectos definidos mesmo que futuro não proporcionasse nada daquilo que lhe vinha à cabeça em cada instante do presente.

Era possível que Nossa Senhora o protegesse, apesar do ódio que o consumia, até porque no seu sonho recorrente, em que as cortinas vermelhas quase o sufocavam, era igualmente presente uma tremenda sensação de paz, que o fazia acreditar que a Mãe de Deus daria o correctivo necessário ao seu Filho absolutista de forma a que o sofrimento na Terra passasse a ser apenas e só objecto arqueológico de estudo pela futura humanidade.

Em vez do ADN o potencial criminoso passaria a ser identificado pela densidade óssea onde, no período de gestação, haviam sido inseridos pós microscópicos por nano criaturas rebeldes e em permanente mutação. Essas partículas eram expiradas dos pulmões do Imenso Ser Divino que governa todos os deuses da humanidade e todas as criações destes, numa galáxia muito para além do ridículo conhecimento proporcionado aos abjectos e ignorantes humanos.

Seria a forma cientifica de aproximar a religião católica dos desavindos crentes, cada vez mais alheios à concretização de um mundo viável segundo as ordens emanadas do ALÉM  ABSOLUTO, assim com letras grandes para que não restem dúvidas sobre o verdadeiro embuste que o ser humano provoca e o seu semelhante.

Era-lhe impossível escrever e não sentia ódio, vivendo numa terra chamada Castelo do Queijo, onde as pessoas eram de tal forma retrógradas que mais parecia o padre ser um desavindo de Deus. Claro que só ele sabia o quão fiel era às Sagradas Escrituras, o fiel depositário da sua mensagem naquela paróquia.

Depois abria os olhos e de vermelho apenas as cortinas, o queijo limitava-se ao odor exalado do seu corpo que depois se entranhava fundo na fronha da almofada barata.

sábado, 19 de junho de 2010

023 o teu rosto enevoado

As memórias que o faziam ausentar-se do corpo cansado de não fazer nada eram cortados pela abrupta sensação de que para além das improvisadas cortinas vermelhas havia algum muçulmano a rezar, mesmo na varando apenas esperando algum deslize bíblico para desintegrar o corpo em nome do seu deus. Para além de delírio constatava ser uma premissa válida que apenas o atormentava mais, apesar de não ter filhos e muito menos frequentar mercados apinhados de gente despreocupada pelas possibilidades dadas por cada um dos deuses em que acreditavam. 

Olhava com mais atenção e não passava de um mero pombo que depenicava algo que por ali caíra, vindo do andar de cima, possivelmente um pão inteiro que ia secando enquanto todos os dias ia sendo comido, sem o medo do fim do mundo que consome todos os supostos seres racionais. 

Sabia-lhe melhor a tese da conspiração, como se fosse um pretexto para manter a obscuridade de uma casa que lhe provocava insónias. Outra vez delineava-se um rosto, previsivelmente feminino embora a sombra tapasse as delicadas feições, os insinuantes trejeitos e a possibilidade de adivinhar um qualquer pensamento pelo odor exalado. Parecia-lhe o rosto enevoado da mulher que urgia amar e assim já podia fechar os olhos, substituir os pesadelos recorrentes pelo amor, que não tinha de ser apenas imaginário.

Visualizar aquele rosto imaginário apenas lhe trazia tranquilidade. Ao ligar o obsoleto equipamento de som que jazia ao lado da cama era uma forma de esquecer-se do ar frio que se abatera por aquela zona sem vontade de partir. Sorria sem saber para quem, apenas sentia que um qualquer amor o tinha seduzido para viver uma vida normal, a dois, com rotina e pedaços de gelatina depois do almoço.

O telefone costumava tocar pouco depois de adormecer, caindo num breve sonho idílico, era a sua namorada avisando que estava para chegar. Era real o amor que faziam, e que o rosto enevoado dos sonhos se transformava em realidade, talvez com encanto, seguramente carregado de doces dificuldades que apenas aumentariam do zero o gosto pela vida.

Sim, as filhas e a constituição de uma família, não porque é normal, mas apenas porque só isso o tornaria feliz, era o seu desejo e ele já o sabia há bastante tempo, mesmo antes de as conhecer.

Quando abria os olhos a consciência que o habitava não desvanecia o sonho, sentia-se dono do seu mundo e longe das utopias irrealizáveis, em que uma miserável conjugação de factores o iriam impedir para sempre de sentir a força de um amor puro entre homem e mulher   devidamente consubstanciado com um possível filho do dois.

sábado, 12 de junho de 2010

022 o tempo de regressar

O avião era sinónimo de regresso, apenas e só, porque mesmo quando ia levava a sensação de deixar um abraço a alguém que às vezes pensava nunca mais ir ver. Porém esse regresso era feito de encontros inesperados, quase sempre saídos de uma surpresa que às vezes se tornava desagradável.

O regresso era sempre físico, que a alma quebrava-se em mil e um pedaços de nada, sem nada o prever voltando a formar almas obedientes para construir a maior e histórica derrota de um socialista que apenas omite as suas falhas perante a possibilidade de governar com maioria absoluta. Presumivelmente a história da gaveta e do socialismo guardado nem para brincadeira servia, tais eram as atitudes mafiosas que punham em questão a própria sobrevivência da liberdade de votar, ou nem isso.

Isso fazia-o lembrar-se do primeiro regresso em que as lágrimas quase caíram dos olhos ao ver a cidade natal do ar. A hora, essa, já não era propícia para votar, que nesse dia havia eleições legislativas e quem teria ganho nesse dia era um exercício a que não queria sujeitar o seu cérebro desgastado, antes a opção pela bazuca aos ombros e uma arma letal apontada à eterna continuidade no lodo, num sistema a que chamavam de democracia.

As coisas tinham tendência a tornarem-se obsoletas e o regresso aos locais de infância estagnada apenas o lembravam aquelas manias do ruído que não deixavam adormecer e das preocupações por assuntos que nem merecem ser pensados. Decerto que se esse regresso se tornasse definitivo os anti-depressivos regressariam à sua vida e isso punha-o pensativo na urgência de regressar onde não sentia essa necessidade de químicos atenuadores da pressão que o atormentava de tempos a tempos.

A alma devia mesmo existir e o desejo de nesse regresso ver todas as estrelas que habitavam no seu coração apenas era atenuada com o pensamento fixo em trivialidades como a falta de dinheiro e sobretudo na ideia que a diversão é sempre secundária perante ele. era sempre momento para concluir que o diabo existia e que deus apenas limpava as escadarias de acesso ao Céu, por falta de mão-de-obra, o que o deixava sem tempo para orientar as cabeças perdidas dos humanos cada vez mais enterrados num buraco vazio de sentido apesar dos efeitos coloridos que atenuavam a frustração de não ter o que se queria.

E depois havia sempre a partida, o regresso, não ao futuro, mas tão somente um encontro seguro com os desejos do coração, sem se deixar influenciar pelas ervas daninhas que eram quase sempre parte predominante no ecossistema que o rodeava.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

021 cinzento amanhecer

Descobrir qual a sensação de um amanhecer sorridente, inócuo e sem preocupações, eis uma espécie de missão que se afigurava impossível. Previsivelmente a solidão evitava discussões, porque as paredes têm ouvidos mas boca só em filmes de ficção cientifica. Então porque não coexistia com o seu envelhecer uma fórmula oca de felicidade que tão bem se adaptava a tanta gente que conhecia? Era algo que o deprimia ainda mais, apesar de se estar nas tintas para os outros, e os outros apenas lhe darem sorrisos e palmadinhas nas costas.

Esses amanheceres eram-lhe vedados, assim como a obrigação de se fixar onde nascera, algo que apenas lhe acentuava a vontade de se suicidar. Por mero acaso, ou não,  a sua mãe passou a ligar-lhe depois da hora de almoço. E dormia mal, pela manhã com o sono a acentuar-se pouco antes do telefone tocar. Era como se vivesse aquela canção do Variações, 'estou além', porque parecia estar apenas o seu corpo e a vontade de fugir elevada à potência máxima. Claro que tanta carga negativa apenas lhe proporcionava a companhia de gente pouco dada a confusões de multidão e a opiniões quase sempre reveladoras de austeridade. Talvez por isso não se atenuasse a vontade de fugir, algo que ia congeminando há muito tempo e que o levaria ao destino mais que provável da passagem para a tranquilidade.

Essa fuga ia sendo adiada vezes sem conta, quer pela sua inércia perante as complicações, quer por uma tremenda desilusão por não ter com quem partilhar os amanheceres, algo parecidos com as noites sem fim do universo infinito para onde, desintegrando-se, queria partir em excursão definitiva, sem qualquer tipo de guia ou mensageiro que anunciasse novas ou meras ovas.

Ficar inerte na cama, por vezes arriscando um  poema sem sentido nem alarido era como que o bálsamo para a sua mente perturbada pelo vazio, com que o mundo louco que o rodeava o tentava preencher.

A sua sorte foi a de se deixar guiar pelos instintos, pelo que qualquer passo menos afortunado ao menos dar-lhe-ia a sensação de ser a melhor decisão possível. Não havia como fugir à vontade de encontrar a mulher da sua vida, que lhe proporcionaria os filhos com que tanto sonhava e que pareciam estar-lhe vedados pela maldição que lhe havia sido lançada aquando da sua adolescência.

Porém, bem mais tarde após alcançar parte do sonho restava-lhe a sensação de que apesar do Sol brilhar mais entre as sucessivas manhãs, era seguro que a vida teria poucos motivos para celebrar.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

020 insuportáveis noites de novembro

A concentração tornava-se um martírio quando chegavam as chuvas mais intensas. Suportar aquela cama de casal sem companhia tornava-se um exercício quase penoso que, invariavelmente, terminava com despertares em estado de pura angústia. Às vezes o suor caía pelo rosto sem que sequer se atrevesse a mexer, não fosse algum daqueles possíveis fantasmas a revelação dos seus medos mais profundos.

Por vezes pegava numa caneta e tentava fazer um organograma que se tornava interminável tornando-se as pessoas, que nele deviam estar, descritas como meros clones de demónios para os quais não havia exorcismo possível.

Era possível que enquanto Novembro durasse o acompanhassem as brutais enxaquecas, pelo que se foi tornando cada dia mais alucinado. Os comprimidos para a depressão crescente limitavam-se a secar as lágrimas e a controlar uma fúria desmedida que exercia quase sempre contra si mesmo, e ia piorando todos os dias.

Nesta fase da sua vida recuperava de um acidente de automóvel que lhe custou muitos meses de vida, numa altura crucial em que estava prestes a tornar-se efectivo na empresa onde tentava demonstrar a qualidade do seu trabalho sem que os seus chefes se preocupassem ou tomassem como exemplo os bons resultados obtidos antes da fatalidade.

Mas outros Novembros se seguiriam, sem os comprimidos, talvez com a noção de que as coisas deviam ser feitas com tacto, por isso encarava como castigo que a namorada lhe pusesse na boca palavras obscenas que ele não sentia, sendo-lhe impossível admitir que as tivesse proferido.

Seria tudo mais fácil se arranjasse a coragem suficiente para se suicidar, porém quanto mais pensava no assunto mais lhe vinha à memória a gente no mundo que o amava, sem falar no presente, um sombra que se escapava e o fazia pensar que a coragem era permanecer vivo.

Era então o tempo dos desamores que o levavam a pensar emigrar para o hemisfério sul, num daqueles paraísos onde era sempre Verão e o clima a vários quilómetros de altitude se dilacerava tornando a presença de artefactos e vida humana uma aventura com destino pouco feliz. Pelo menos as estatísticas não mentiam, tanto para o bem como para o mal.

Outras vezes, de sorriso estampado, num rosto cansado de não sorrir, viajava por mundos infinitos de paixão absorvendo energias que invariavelmente se transformavam em momentos positivos criando uma barreira protectora que impedia as almas penadas de se juntarem com os seus falsos propósitos a um ser predestinado a algo mais que uma possessão demoníaca.

sábado, 22 de maio de 2010

019 obsessivamente o mar

Ao recordar aquela data longínqua e a mão a deslizar pelas costas suadas de uma outra mulher que amou, já não sentia saudades da inocência que o fez gastar vidas sem fim, como se fosse uma horda de gatos consecutivamente aniquilados para perpetuar a sua estupidez. Agora que se passeava pelos cantos sujos de uma cidade onde tal gesto podia dar prisão, aproveitava para acariciar a mão pouco macia da mulher com quem ganhara uma nova vontade de viver.

Era-lhe fundamental estar perto do mar, como se essa aragem proveniente das profundezas do mar, ali disponível lhe revigorasse a alma, enviando estímulos para o corpo inteiro que faziam desaparecer as energias nocivas que se acumulavam dentro de si, em menos de nada. Porventura poderia transformar-se num demónio, tanto era o rancor e desejo de vingança que o possuíam. A luz raramente descia das montanhas para lhe apaziguar os momentos de puras trevas e deixava-se deambular pelas zonas proibidas da cidade pacata que o vira nascera alguns anos antes.

As paixões foram-se sucedendo e com as frustrações acumuladas o racismo sobreveio e apenas lhe apetecia pensar no mar como destino talvez trivial de quem apenas quer viver. 

Não, essas memórias de uma mão suada pelo contacto com a pele de uma mulher já amada não passavam de mero envolvimento com seres daqueles que gostam de distinguir o sumo da essência carnal da alma sem fim, de ganhar tempo desnudando o corpo antes de se deixar envolver pela água do mar.

Se tivesse visto aquela onda gigante ficaria privado daquela excitação primitiva, sempre no seu pensamento. Certa era a alucinação que lhe percorria a alma não deixando dúvidas em relação ao motivo pelo qual deixava de se entregar, amar sem reservas e ter sessões ejaculatórias como tinha quando era virgem, apenas com a vantagem de distinguir em alta definição e na carne quem lhe chupava o sexo, saber de cor o sabor da decadência que lhe poupava o sofrimento dos dias vazios.

Em dias mais cinzentos, em que tomado por um acesso de loucura momentânea fugia de casa para mendigar às portas dos ricos, sentia como uma espécie de liberdade, poupando as facas que trespassavam todos os sonhos que ainda assim lhe davam a lembrar que o corpo funcionava e respondia de forma satisfatória aos caprichos da vida, enquanto ia distinguindo as sucessivas ondas gigantes que atormentavam a sua vida.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

018 solidão primitiva

Em dias normais o corpo pedia para dormir, só que já eram raros os dias em que a cabeça distinguia o que era normal da sucessão de planos disparatados que pouco ou nada acrescentavam ao seu conhecimento. Sempre ouvira dizer que o corpo humano pede movimento, que foi feito para agir e comunicar com outros corpos humanos, porém o assunto premente era descobrir o porquê da eterna insatisfação com o curso da vida, algo que resolvia isolando-se e mostrando uma má cara, angustiante para quem o rodeava. Era possível que essa solidão fosse algo de primitivo, que pertencesse à sua alma, entre cada encarnação.

Já passava muito da meia-noite e as cervejas que bebera muitas angústias delapidaram. Enquanto isso o pé direito carregava a fundo no acelerador sem sequer se preocupar com o nível de alcoolemia. A seu lado a namorada de curta data cantava-lhe algo de uma canção de amor igual a tantas outras e afinal chegava sempre à conclusão que todos os homens são iguais e que a fortuna de ter uma vagina se resumia aos orgasmos múltiplos, aos filhos e a dançar, todas as outras coisas eram puro castigo para a mulher. Depois chorava, enquanto urinava o produto da sua bebedeira juntos dos Paços do Concelho, apoiada no braço direito dele. Claro que este era um momento raro em que o seu coração dilacerado se opunha à triste constatação de ter sido usada por um homem que amara sem qualquer tipo de condições, apenas amor incondicional, cuja paga fora o desprezo e a violência.

E ao longe havia sempre uma Operação STOP em que a polícia pedia a carta de condução e que se soprasse no balão. Eram momentos de emoção, o que revelava bem o seu estado depressivo e a dificuldade que tinha de fazer das noites um momento de prazer, já que os dias eram negros, apesar do Sol, sem condimento apesar das comidas elaboradas que ela fazia para todos.

Os pesadelos, cada vez mais absurdos, sucediam-se vertiginosamente e nem o facto de ter a possibilidade de se saciar sexualmente como mandam as regras heterossexuais, o acalmava. Isso punha-o triste, com a falta de sentido que a vida tinha assim, tudo oco, algo que o perseguia incessantemente como se fosse o derradeiro dos Oásis onde pudesse deixar esquecida a solidão.

Quando as noites estavam quase no fim e a ressaca começava a ter os seus efeitos deitava-se quase sempre sem vontade de foder, como se o caminho para outra dimensão fosse a meta desejada.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

017 noites de temporal

Os dias passavam, consecutivamente com planos de um futuro não muito exigente, em que algumas decisões simples se encavalitavam numa suposta liberdade de movimentos que impediam a concretização de outros sonhos, tornando a realidade uma confusão para os sentidos, ainda jovens, gastos de tanta decepção.

As noites nem sempre foram de pesadelos, algumas vezes, talvez na adolescência, sujava os lençóis depois de copular com as mulheres nos seus sonhos. Isto acontecia-lhe quando ainda era virgem e os trovões apenas lhe tornavam o sono mais pesado. A confusão de sentimentos tinha destas coisas insanas, eram mulheres que lhe devoravam o sexo, mesmo sem cara, o desejo dos seus corpos apenas imaginado e depois nem eram precisas as revistas feitas a pensar em sessões contínuas de masturbação, jovens entesoados com borbulhas mal espremidas, desviados da suposta normalidade, que cada vez menos o é.

Era possível que em noites de temporal todos sonhassem com corpos femininos e que encostado aos seus pensamentos estivesse sexo a queimar o seu próprio sexo. Houvera sido educado quase na ignorância e o sub-consciente pregava-lhe estas partidas. Claro que as mulheres sonhariam com os homens, mas um casal de ambos os sexos só é coisa normal no reino animal para fim exclusivo de reprodução, nos humanos parecia que tinha deixado de fazer sentido.

Por maior que fosse a cama havia sempre um qualquer problema em aceitar a solidão, uma tentativa de aceitar que aquela maldição de vir a passar os dias consigo mesmo o levasse para dentro do manicómio, cujo parque de estacionamento conhecia tão bem. Lá dentro ter-lhe-iam dado as substâncias químicas adequadas para depois se passear semi-nu pelas ruas mais próximas e ser alvo da chacota dos loucos sem prescrição.

A pressão tem destas coisas, porque afastar-se da namorada o levava para as trevas profundas de onde só poderia sair um homem mais atormentado.

Sabia-lhe bem aquela espécie de rotina que tinha com as filhas dela. algo que diziam ser errado apenas porque o pai verdadeiro pertencia àquela estirpe de homens cuja palavra demolidora valia sempre mais que a ausência de actos concretos. Quem lhe dizia essas coisas não podia saber do desejo que se consumia e lhe destruía uma alma que já tivera outras tempestades furiosas, sempre em encarnações passadas. Se acreditasse em Deus decerto que nesta teria muito que se confessar, pela inércia e orgulho que lhe consumiam o bom-senso sem que que se apercebesse da pulsão suicidária que se libertava do medo que a amarrara anos a fio.

Em noites de temporal lembrava-se de abraçar com força uma mulher que já nem era memória.

terça-feira, 18 de maio de 2010

016 no vale do absoluto desasossego

Era tarde, os olhos abertos a uma hora daquelas e sentir apenas os mosquitos como companhia não lhe augurava que o dia seguinte viesse a ser preenchido com a dose mínima daqueles conselhos de esperança que passavam a vida a dar-lhe.

Antes fosse verdade que aquela fotografia que vira num cemitério do seu país fosse de algum irmão perdido e que no meio de alguma tempestade pudesse morrer para o procurar na dimensão paralela onde vagueavam as almas penadas. Isto se ainda não tivesse reencarnado num qualquer animal, racional ou não. Eram apenas conjecturas que não alteravam os cabelos brancos e a fonte intensa de vazio que brotava do seu coração. Para quê mentir se a vida na forma de felicidade alcançada não passava de algo que só poderia alcançar por via da morte? O último dos sossegos, alcançado no sopé da montanha que avistava da sua janela, apesar de por lá não existir qualquer cemitério ou portal para um mundo diferente, sem angústia, buracos negros que apenas apressavam um destino baseado nas trevas. 

Seria possível acreditar que sem nunca ter vivido no meio de uma guerra se sentia obcecado pela ideia do sofrimento generalizado ao ponto de estar sempre a tingir o ponto de ruptura? Havia dias em que corria para a casa das cortinas vermelhas como se destruir aquele pesadelo fosse o essencial para se entregar de vez a uma vida normal. O corpo esse permanecia inerte, como se os fantasmas fossem mesmo verdadeiros e a primeira comunhão tivesse mesmo existido, embora sob a forma de uma qualquer cerimónia invertida no seu sentido litúrgico.

Eram pensamentos a mais para a vida simples que pretendia e decerto que teria que continuar o tratamento com os químicos, viciantes, porém necessários. Por isso e porque a cabeça se ressentia do esforço absurdo a que se sujeitava, ia-se esquecendo dos passos importantes que eram imprescindíveis para uma vida com um mínimo de qualidade. Ia-se deixando dominar por um sentimento de absoluta passividade em que nem a dormir conseguia encontrar a paz desejada. A namorada, essa vivia os seus tormentos do final de uma relação, algo que o fazia pensar ser um puro castigo, essa cena de ter de arcar com vidas de seres que apesar de tudo tinham a sublime capacidade de ser felizes no meio da desgraça que se abatia inclemente. Eram seres afortunados de quem ele não queria fugir.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

015 um povo melancólico

Causa estranheza que um povo tão fustigado pela miséria ultrapasse essa dor com boa disposição. Terá sido esse o propósito da passagem de Jesus pela Terra, sobretudo o aproveitamento do seu carisma enquanto homem, transformado em divino com os lucros por demais evidentes, sem outra intenção melhor de a de amansar as multidões pelo medo do que possa acontecer depois da morte.

Assim lhe passavam estas ideias na cabeça e o sentido revolucionário perdido num vácuo sem sentido. Isto para que a rebobinação do disco enfiado às três pancadas, na sua cabeça, decorresse sem que se desse qualquer incêndio inesperado. Mas o seu interesse não se fixava nas influências de Jesus nas alegrias de um povo pouco abastado materialmente, antes nos actos que praticava, quase sempre sem reconhecimento imediato, quase sempre motivo de uma inveja qualquer.

Tocava-lhe no fundo do coração uma melancolia que se desprendia dos desejos por cumprir, de seres pouco prováveis, como se a falta que alguém faz tivesse que ser manifestada apenas pelos extrovertidos. É óbvio que só chega a essa conclusão quem olha para o infinito e se esquece de um mundo aqui bem perto do corpo, da alma e mesmo do sangue sem que a família tenha que ser compatível no ADN.

Apesar do pesar que transbordava do seu rosto, era um turbilhão de sentimentos que apenas o angustiavam ainda mais. Resolvia tudo, sentindo-se desejado, útil e amado. Era sempre um tónico importante para abandonar as ideias suicidas que de vez em quando lhe atolavam o pensamento.

E quando se recordava da sua terra, onde fora criado com o amor possível, era-lhe impossível sentir apenas repulsa, não pela língua que se ia evaporando da sua boca para um qualquer buraco negro, mas pelas pessoas que faziam que faziam parte de si para além do corpo e das desejadas sessões de sexo. E esse amor que tão ausente ficara do seu corpo fora um dos motivos para a fuga, esquecendo-se de cumprir a vontade aos pais de ter um emprego seguro em tempos difíceis, como se alguma vez alguma coisa se tornasse fácil perante a sua intransigência.

Voltar seria pelo hábito da bica e do copo com água que se perdera algures no tempo e decerto que a dieta programada iria pelo cano abaixo ao regressar ao país dos acidentes vasculares cerebrais. Talvez fosse melhor relembrar os especialistas que antes de mudar esses hábitos haveria que castigar o desprezo do ser humano pelo seu semelhante nas sociedades ditas democráticas.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

014 lugar de desespero

Porém esse menino não era de todo provável que fosse seu filho, podendo ser mais uma das eternas chantagens de uma das mulheres que ele tratara como mero objecto sexual. Não que agora fosse alguém conhecido e tentasse tirar partido disso mas tão somente fazê-lo acreditar na tese da bruxaria que o puxava para o fundo de um poço de infinita amargura.

Era neste lugar de desespero que costumava deitar-se quando a obsessão pelas cortinas vermelhas atingiu o seu auge. Depois aparecia a filha mais pequena da namorada e com um mero sorriso conseguia fechar aquele compartimento negro que crescia dia após dia. Mesmo não sendo sua filha adoptou-a espiritualmente sabendo perfeitamente os riscos que podiam advir dessa atitude.

Entretanto a noite caía e uma longa caminhada fê-lo embrenhar-se numa floresta onde tudo lhe parecia conhecido, pelo que avançava com cuidado para que os ramos cansados de uma qualquer árvore envelhecida não lhe trespassassem o corpo, que tanto ansiava morto como a vibrar da vida que tentava incutir a si próprio.

Parou e resolveu nem olhar para trás. Os olhos marejaram-se das lágrimas perdidas em abismos passados e um medo inexplicável bloqueou-lhe o movimento dos braços e das pernas, como se o seu Apocalipse estivesse prestes a acontecer. Mas voltou a fechar os olhos voltando ao centro da cidade, perto da casa daquele homossexual que lhe difamou a honra com mentiras inimagináveis. Pensava que o mundo seria bem mais saudável sem a presença desse intriguista de meia tigela.

Nunca conseguiria deixar de se sentir um estrangeiro, mesmo quando se sentava procurando um qualquer sentido para os seus sonhos que decerto seriam melhor definidos como pesadelos. Alucinado ou não conseguia adaptar-se à luz e às trevas, mas a vida ia-se tornando uma doença sem cura para além da morte e por isso ia evitando o sorriso de circunstância, como se o ar sério que lhe habitava o rosto fosse uma espécie de auto-velório nunca desvendando os desejos quase amargurados de vida e compaixão por quem necessita, seja pobre, ou no mínimo, agente activo de uma conspiração em que apenas é permitido viver e ser feliz.

Já não lhe preocupava a solidão, a afectação e as formas de a ultrapassar passavam a ser a parte principal das questão. Nem assim conseguia explicar porque tinha amor por quem quer que fosse, quando a vontade de renovação se entranhava e passava a fazer parte do corpo.

terça-feira, 4 de maio de 2010

013 madrugadas de terror

As cortinas vermelhas haviam feito parte de uma fase da sua vida em que procurava por todos os meios fugir a uma solidão provocada por uma sucessão de erros em que chegava a duvidar das suas próprias apetências sexuais. As mulheres eram o seu templo e o seu inferno, qualquer relação apenas parecia fazer sentido como amizade, quase como se fosse perceptível alguma repulsa que ele nunca chegaria a entender.

Por isso imaginava um mundo diferente em que faria o papel delas e se entregaria a um qualquer homem, sem cara nem desejo. Porém tudo não passava de uma fantasia cruel que apenas lhe amargava mais os dias agudizando-se o sentimento de rejeição advindo de paixões inconsequentes.

Nesse tempo as noites eram passadas entre pesadelos e dores de cabeça violentas. O stress agudizava-se de dia para dia e nem a masturbação servia como escape satisfatório para uma vida em que a única novidade eram os primeiros sinais de hipertensão. Nem por isso largou as batatas fritas com sal ou as misturas de refrigerantes com vodka, dir-se-ia que a situação deteriorou-se dramaticamente e só faltou acompanhar essas sessões de auto-abandono com  algum tipo de droga inalada, mas a solidão e alguma noção de vergonha impediam-no de sair à rua e procurar pela via sacra que levaria a uma cruz invertida e sem salvação.

A situação melhorou quando se rendeu aos anti-depressivos, acompanhados de água. Registou-se alguma euforia e estabilidade emocional, tudo situações provisórias tendo em conta outro tipo de fantasias complementares que incluíam sessões de carnificina brutal sem perspectivas reais de algum tipo de punição.

As noites consumiam-lhe um coração em chaga aberta fazendo-o acordar suado e encarara a realidade com dureza total. Resolveu o pesadelo de olhos abertos no dia em que cedeu às investidas de uma mulher ainda mais atolada em problemas do que ele. Nem por isso as noites passaram a ser de mais prazer porque os sentidos estavam condicionados pela posição oficial do patrão que pensava nele como lixo, um pouco como todos os patrões pensam ser os seus empregados.

Doíam-lhe os olhos de cada vez que o Sol se punha atrás da montanha ou engolido pelo mar, tudo dependia da latitude ou das memórias guardadas de uma tarde de sexo intenso que qualquer dia lhe deixaria uma prenda pouco apreciada.

Anos mais tarde e sem saber o porquê receberia no correio fotos de um menino louro, olhos cor-de-mel que provocaria a ira da sua mulher, com uma predestinação natural para o conflito e criação de teorias da conspiração que foram o início das noites mal-dormidas.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

012 uma infância doente

Podia escapar-se para aqueles contos fantásticos que povoavam a imaginação de alguns escritores ou simplesmente enredar-se no exército de micróbios que o atacaram na sua infância.

Não é que as coisas tivessem um rumo grave, mas as moléstias daquelas doenças infantis que faziam grávidas fugir em estações de comboios apinhadas, deixaram as suas sequelas na vontade de faltar ao trabalho, já depois de adulto. Trabalho sempre remunerado, utilizando as adversidades como uma terapia de onde se extraíam os podres da sua existência, por vezes vergonhosamente amorfa.

No rádio escutava as notícias da gripe do momento, os conselhos do especialista convidado, seguindo-se a visita ao pediatra, careca natural, com uns óculos daqueles ultra-graduados, sempre com a pose afectada de comerciante sem escrúpulos escondida numa ainda menos natural capa de cordeiro algo dura, quando a realidade prenunciava mais e mais tempestade.

A questão que se punha nos tempos de infância não se devia resumir à bomba de oxigénio que lhe foi posta no hospital, onde as baratas faziam de melhores amigas. 

Causando confusão o seu cabelo louro e ondulado, alguém o raptou, embora as memórias se resumam a um pão com manteiga e um vão de escadas de um prédio nos subúrbios da capital, ainda pouco habituada aos brutais engarrafamentos dos acessos à ponte dos cravos e do fascista. 

Sim, era-lhe permitido ter memórias apesar de escassas as sementes fecundadoras, talvez de desejo, seguramente de um vazio preenchido pelas vãs propostas dos subliminaristas do sistema, detentores de uma profissão que jamais sucumbirá a qualquer crise, com a natural excepção do período em que o Sol se começar a expandir.

Quem pense que a sua vida triste não era a espaços injectada de um qualquer ânimo vindo não se sabe bem de onde, só pode ser ele próprio um natural equívoco da natureza, da qual se alimentam os donos das consciências, naturalmente, predestinadas.

Pudesse ele escolher e decerto que a infância seria dotada de outras nuances, porventura mais ocas, assimilando melhor a capacidade incrível que nasce com alguns de aceitar essa finitude de que também é dotada a alma humana. Jamais se pense que todas as almas são eternas. Assim o pensava, na sua angústia e inquietação, como que a pedir que, quando crescesse, não tivesse a estranha sensação de estar sempre a passar pelos mesmos momentos de solidão, obtusas incompreensões embutidas numa rotina que talvez interessasse a um corpo morto, acrescentando o cheiro fétido da decomposição.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

011 ébrios amigos

À noite todos os animais saem à rua, não só era o título de uma música da banda sonora do 'Taxi Driver', como uma verdade que se revesti de muito álcool, que fazia desaparecer muito mais que meras inibições, sobretudo o bom senso e a falsa questão do amor que era consubstanciado pela violência gratuita. Claro que as coisas nem sempre são assim e é lógico que haja diferenças ao contrário do que as pessoas gostam de dizer, ou tudo ou nada, uma vez filho da puta para sempre filho da puta.

Ele lembrava-se das noitadas em que as misturas sucessivas de bebidas alcoólicas resultavam num violento exercício de agonia para o estômago, mas sobretudo para o parco equílibrio da cabeça, que pagaria as profundas idiotices com que se digladiara.

Nessas noites de desiquilíbrio foi-lhe dado a conhecer um novo amigo, uma espécie de desdobrável que se auto-reparava, tornando-se virtualmente invencível. Quase que se esqueceu daquelas pequenas coisas que só a sua mulher lhe dava, quando na primeira bebedeira juntos as bocas se encontraram sem nojo, preconceito ou confusão. Claro que foi apenas um breve momento que nada mais queria dizer que da profunda amizade que os viria a unir. Algo indestrutível os seguiria, cada um com a sua família, fossem os filhos verdadeiros ou meramente espirituais.

Apenas se lembrava das luzes vermelhas e das garrafas de brandy vazias, enquanto se ouviam sirenes de ambulância e a confusão natural provocada por gente pouco habituada a conviver em harmonia com o meio envolvente. 

Esses foram os tempos ambíguos em que perdeu o seu tempo com os excessos de álcool, que nos dias que correm o minam de tal forma que chega a adormecer em cima da sanita, enquanto fuma sem garantias de que um dia não possa ser parte das estatíticas de morte por inalação de fumo. E apenas será identificado pela perfeição das dentadas excitatórias da sua fêmea, um pouco pelo corpo todo.

Claro que o estado ébrio é acompanhado pela sua mulher, tornando-se as noites de sexo a perdição do sono pouco apurado dos vizinhos do lado, pais de sete foliões, netos e talvez bisnetos para encher de alegria todas as ocasiões.

Haja decência na descrição dos actos de perversão e dos contextos sem crise onde a qualidade nem sempre é passivel de consideração quando se vive num intenso capitalismo selvagem.