quarta-feira, 10 de agosto de 2011

090 noites de escasso amor


Morta, foi como encontrou a Vontade, depois de abrir os olhos. Como se não fosse suficiente o castigo de se passear incoerentemente entre fendas espácio-temporais, ainda tinha que experimentar as exéquias de uma das suas mentoras. Desta vez não podia culpar Lúcifer, era testemunha da sua perfídia ao momento da morte da amiga e intensa Vontade. Não, desta vez o culpado assumia um lugar diferente num Universo finito, onde coexistiam paredes inultrapassáveis com os triviais buracos negros espalhados pelo infinito de cores imprecisas.

Morta a Vontade, recuperados os poderes, Arturo voltou ao frenético mundo, onde, com Flor, as quatro filhas e outros 66 lutariam durante o Apocalipse para depois fazer crescer, naturalmente, a Sagrada Loucura.

Arturo voou pelo Universo fora, até chegar à parede que delimitava o conhecimento possível. Chamou pelo amor de Deus e recolheu o seu silêncio habitual, lançou pragas ao mundo feio que ia salvar e recolheu de novo o silêncio. Porém vendo as coisas por outro prisma já se escutava uma melodia de alguém morto após greve exagerada do coração, tal o excesso, o abuso, a contemplação de perfeição, apesar da insubordinação. Os aplausos sucediam-se enquanto se soltava ‘le poinçonneur des lilas’, uma após outra vez, sem que com isso Arturo se acalmasse. Gritou então, nos confins da existência, na fronteira da demência e talvez do outro lado da parede inultrapassável estivesse a montanha e o desejo personificado em Flor, nas suas quatro filhas e num amor simples de conceitos, grandioso em preceitos.

Sem que as personificações do bem e do mal ou qualquer outro dos peregrinos se desse conta, soltou uma lágrima, na cauda de um cometa que apareceu assim do nada, e para a Terra se dirigia, repleto da destruição Apocalíptica   que tantos apregoavam.

Não pensa agora no medo, apenas em juntar todos e apanhar o espírito de Stockhausen e fundi-lo com as suas decididas aventuras em que a mediocridade deixaria de existir apenas porque cada um já tinha dentro de si o gosto próprio longe do consumo de massas, das selvática opções dos seres humanos em se dominarem apenas por lucro e nunca pelas vocações internas de cada um.

As noites eram de escasso amor, ainda o são, mas o cometa e a sua cauda de destroços anunciados encontrá-lo-á no caminho de volta à Terra.

089 uma vida que se afasta


Uma opção a tomar em conta é dar ouvidos aos novos loucos, assim chamados porque ousaram participar em manifestações contra os líderes do comodismo absoluto.

Arturo olha de novo para a montanha, tenta decifrar os processos que levam a que o vento provoque uma falha de dimensões assustadoras no coração da terra arrefecida, mas deixa-se ficar pelo desejo de um simples abraço que se afasta cada vez mais, como se os deuses se unissem contra qualquer tipo de felicidade. Mas ele também não acredita nestes deuses, demasiado parecidos com os humanos, com vícios irritantes e perigosos, pelo poder de esmagar qualquer tipo de insurreição, apenas por um simples birra.

Tenta o presente, mas tem que se encostar ao passado, onde as aventuras se acumulam e parecem troçar de um presente aparentemente vazio, feito de alucinações e vidas destroçadas que o fazem duvidar da necessidade de se manter vivo e salvar o mundo.

Sabe que, fechando os olhos, pode ter acesso ao topo do mundo. Que, voltando abri-los, pode estar num hospício, enterrado numa camisa de forças que o obrigue a ser mentalmente mais activo, por isso aproveita o facto de poder olhar para a falha na montanha e pensar que é ali que tudo se altera. E como seria se todos pensassem ser capazes de salvar o mundo? Seria uma utopia, porque tomara a muitos salvarem-se deles próprios.

Na distância de um Oásis em que possa contemplar partes do paraíso, Arturo e Flor vivem numa dimensão de pura ansiedade, cansando o coração da falta de aventura intrínseca. Por isso mentalizam-se que os sonhos de rebeldia e mudança podem ser a realidade, provavelmente para lá da fenda que se abriu na montanha para onde olham todos os dias, quer com os olhos, quer com o coração.

Entretanto um estranho ruído acerca-se deste lado e as fronteiras da loucura, onde vivem outros eus, onde se parte em busca da liberdade e se combatem os estereótipos da sociedade, esbatem-se avivando memórias de tempos antigos em que a pureza das propostas dignas de concretizar era igualada pela infame ilusão provocada pelos demónios sem corpo.

088 corpo que se extingue


 
Como reacender a chama num corpo que se extingue?

Se o mundo quiser ouvir algumas das soluções e aplicar o dinheiro da guerra no desenvolvimento humano decerto que a pergunta atrás feita é de resposta básica. A sua simplicidade, no entanto, não a deixa voar para lá da mera utopia, causando destruição e ainda mais guerra como vingança. O que se passa é que os ouvidos do mundo estão com defeito, evoluindo os seus novos componentes para uma surdes específica, em que apenas entendem mensagens subliminares.

Num momento transpira saúde, selvática vontade de destruir dores e preconceito, no outro apenas se arrasta até ao final do degredo., onde mergulharam todos os deuses do Olimpo quando a antiga Grécia passou a memória.

Um corpo que se extingue, uma vontade aproveitada nem sempre da melhor maneira, sempre com os olhos postos na produtividade e dinheiro extraído, enquanto há chama no corpo que se vai extinguir em breve.

Flor, com as suas indecisões abafadas em rios de lágrimas, na dimensão para lá da compreensão, combate esses demónios. Cada lágrima expelida no outro mundo é um punhal cravado na maldade que flui entre mundos, na vontade de ver os filhos de todos crescerem sem o preconceito do bem ou do mal, apenas conscientes das suas opções, de que a realidade escolhida não prejudique o regresso à harmonia inicial, só possível com um Apocalipse, não exactamente igual ao dos homens que inventaram deus, mas o de Deus que inventou os homens. E ela via em cada humano predisposto à mudança radical um demónio que se extinguia, um anjo que enlouquecia, uma vida que se enriquecia.

Lá fora no tempo das chuvas abundantes, ouviam-se os acordes da guitarra de Carlos Paredes a sair das entranhas da terra para anunciarem vida, mesmo que depois apenas sobre-viesse o desencanto, e Flor ganhara o dom de descobrir o que podia correr mal, lançando novas sementes, impolutas, virgens da desgraça humana que tanto afligia o planeta.

É um trabalho quase monstruoso decifrar os verdadeiros humanos dos viajantes entre dimensões, que apenas têm como missão destruir, deixar um rasto da sua ambição desmedida pela construção dos fossos mais fétidos do Inferno aos olhos e alma de quem apenas procura o paraíso possível.

Entre tanto trabalho e assombração ainda tinha como trabalho manter acesa a chama do amor entre ela, as filhas e Arturo.

087 as primaveras tristes


O ruído não incomoda, é preciso levar o gosto pela vida às últimas instâncias. Nem sequer a ousadia de algo o fazer sorrir sem que depois se sujeite a uma resposta agressiva. É bom ter vida, uma mensagem que, está seguro, ainda falta chegar a muita gente.

Lembranças, só daquela Primavera em que um temporal entristeceu algumas famílias engolidas mais cedo pelo natural esquecimento a que quase todos estão votados. Apesar dessa infame recordação, guardava momentos de loucura que não se podem abreviar assim numa mera historieta. Só que terão sido a génese de um ser que não tem nada de normal e vive preso num hospício.

O olhar trespassa as paredes enquanto lá bem ao fundo uma melodia árabe convoca antigos anjos há muito esquecidos nos fossos perdidos de um Inferno alternativo do grande Satã. O desejo deste ser agrilhoado é apenas o de amar e ser amado sem que os preconceitos normais das bestas que o rodeiam se interponham num vácuo que aperta o bem e o mal num buraco comprimido por pouco tempo, decerto negro, seguramente devorador de qualquer tipo de vontade própria.

As Primaveras tristes da ausência de liberdade física até podem terminar num abrir e fechar de olhos, mas ao mesmo tempo sente a paz necessária para poder fugir às responsabilidades de líder de uma via alucinatória de desejo.

A consciência de Arturo não passa de um emaranhado intenso de fragmentos dos quais apenas agora ele tomou noção, entre os comprimidos para dormir e as drogas experimentais que lhe desarticulam o pensamento.

Por vezes julga ver Flor e as suas 4 filhas do outro lado do espelho, conspirando a destruição de um pacto sagrado contra ele e as suas ideias revolucionárias.

Os olhos fecham-se, as cortinas vermelhas reaparecem e encontra-se de novo no velho quarto, quase sem espaço, onde amou Flor em noites de volúpia secreta. Sorri por voltar ali, deixou de ser apenas uma recordação. Ele caminha naquele apartamento como se todos os desejos do seu ser se resumissem ao seu conteúdo aparentemente vulgar.

Junto a si um homem, profundamente preconceituoso, convida-o para beber uma cerveja. Está um frio de rachar e a Primavera de Arturo ainda não ousou ser o princípio de nada.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

086 vastos aromas

Só pela imaginação contar os aromas embutidos em almas desavindas com a própria essência era um exercício cansativo.

Agora que que a consciência da falta da vida normal é a realidade possível para uma vida em que as perguntas que lhe são feitas são deixadas no ar até ao dia da loucura total, Arturo busca uma forma de distinguir as várias opções que se lhe deparam quando abre e fecha os olhos. As experiências são tão intensas e cravam-se de tal maneira na carne que cada aroma que deixam é uma forma de abraçar o desconhecido sem ter medo do que lá se vai encontrar. É possível que já tenha vivenciado alguma dessas experiências de vastos aromas entranhados numa pele ainda por curtir pelas naturais agruras do tempo.

O contacto com as pessoas reduz-se ao essencial, o castigo para a sua crónica falta de tempo é estar-se nas tintas para querer saber das suas banalidades, porque ao vê-lo utilizarão os mesmos clichés de sempre, saciarão uma necessidade momentânea de o ver e pronto, mais uns meses ou anos e lembrar-se-ão outra vez dele. Como censurar isso? Uma sociedade de ritmos desenfreados, puro egoísmo e dedicação aos que estão mais perto não era nada que ele também não fizesse antes. Agora distanciou-se e a purga necessária do sangue apodrecido de parte da família dos pais está em curso, a dos amigos que só não servem para ajudar, ainda mais e ainda assim consegue pensar que no meio de tantos pesadelos há lugar para uma espécie de paraíso em que convivem unidos os que realmente fazem falta. Por vezes apenas faz falta a própria companhia. Arturo agradece a algo a felicidade que tem em poder pensar pela própria cabeça, ainda assim não descarta a hipótese de usar a corda com que prende a roupa estendida para outros fins menos agradáveis. É notório que lhe faz falta a genuína força de Flor para desbravar essa melancolia, esse canteiro de flores que pouco ou nada têm em comum.

É preciso olhar com atenção para dentro do seu coração, devidamente protegido por uma couraça envenenada, partir em busca de moinhos inventados ou apenas um suave odor que convide ao sexo desenfreado.

domingo, 3 de julho de 2011

085 incalculável frescura

Quando se toma consciência das vontades, do caminho que se percorre e da necessidade de acreditar que para além dos fatalismos que nos impingem, torna-se mais fácil aceitar uma derrota, apenas e só porque faz parte do processo e não é o processo em si. E se for também não há problema, sempre se pode atravessar o oceano montado num habitante de Sírius, um golfinho, para os menos versados nestas coisas.

As marés e as desgraças far-se-ão sentir, mas a força de vontade suplanta todos os deuses e diabos que apenas nos tolhem o espírito.

É imperioso tomar essa consciência quanto antes ou o egoísmo latente na cabeça de cada um estender-se-á aos corpos vazios de sentido, tornando o penoso arrastar da indiferença pelo que se passa à sua volta, um mero caminho que não se pode evitar.

Passou-se muito tempo desde que Arturo começou a ter as triviais dores de cabeça e que Flor mudava o mundo apenas com o seu sorriso contagiante. Como em todos os processos de mudança, há dores que nascem, são reinventadas enquanto vivem, apagadas mesmo antes de morrerem, as da alma claro está. É curioso que a lembrança das energias positivas que prolongam o bem-estar tendem mais facilmente a ser esquecidas.

Ambos cresceram mesmo que as aparências se mantenham. Ambos subiram aos Céus e passaram as necessárias eternidades no Inferno. No final empenharam-se na indiferença da guerra entre o bem e o mal e foram acusados de loucos, lançados para um hospício onde se pretendia que morresse a memória que se pudesse ter deles.

A vida nem sempre é como nos querem impingir, nem para o melhor, nem para o pior e as centelhas de vida dos que se foram cruzando com eles, injectaram uma frescura intensa na metódica batida do coração de cada um. Os olhos passaram a brilhar, mesmo que por vezes fossem implacáveis com os males da sociedade.

Em nome da obliteração dessa incalculável frescura foi-lhes montada uma cilada, por Deus e por Lúcifer. A Luz e as Trevas fez parar o tempo, com a singular excepção do sítio onde os átomos de Arturo e Flor se juntavam formando os seus celestiais corpos.

084 Claro é o pensamento

Deixe o passado no seu canto, urna aberta para revisitar velhas glórias, mas alimento-me do presente que a minha tem sido, um verdadeiro corropio de ausências, prepotências e poucas intenções verdadeiramente genuínas de ajuda alheia.

Disse ao vento que me safava sem o erário de ninguém e parece que a malta levou isso a sério. Não me magoa senti-lo, até constato que vivo melhor das minhas capacidades que me estimulam, que a viver, quer a desintegrar-me, do que viveria se estivesse sob o jugo de alguém, anjo ou tirano.

Tenho costume de mudar de mundo enquanto os olhos se fecham e depois de abrem, não é que o peça, mas apareceu-me este dom enquanto dormia, na minha cama grande, sozinho, apesar da doce Flor, que de há uns tempos para cá acompanha de forma activa as minhas ditosas desventuras.

Nem pensem que tenho alguma carta para dar novas ao mundo. Não, apenas vivo no meio das bruxas que protegem e me aconselham nos precipícios que vão dar ao primeiro fosso do Inferno. Às vezes chego mesmo a cair, apesar de ver sempre as mesmas coisas e de sentir uma estranha cumplicidade com as pessoas que ocupam os espaços perto dessas coisas. Mas sigo, talvez sem saber que se quisesse podia voar. Mas detenho-me no caminhar, nas ânsias e nas saudades de Flor e das suas quatro filhas. Afinal o único conselho que recebo das bruxas é para me manter na corda bamba e afastar-me desse amor, algo que nunca se instalará. Que vão para a puta que as pariu! Tudo menos a solidão.

Pensar que um dia sonhava ser possível aceder a uma vida normal sem arriscar tudo num possível buraco negro e, no entanto, aqui estou, à beira de uma loucura saudável que me levará ao mundo encantado das dificuldades ultrapassadas com um sorriso, mesmo que depois voltem furiosas e vingativas.

O mundo desencantado da segurança até podia segurá-lo e cantar vitórias aos filhos da puta que me perseguem na mediocridade, porém prefiro acreditar que aqueles sonhos de itnensa realidade podem mesmo ser o ínicio de qualquer coisa profunda.

Entretanto o frio voltou, os alarmes da ourivesaria, ao fundo da rua, tocaram. Apetece-me beber um whisky e um café sem açúcar. Para completar este momento de felicidade basta um abraço de Flor quando estiver a entrar em casa.