terça-feira, 8 de março de 2011

058 traficantes de tudo

O casal virou-se para ele. Olhos vazios, voz monocórdica, discurso previamente ensaiado. Fixou-lhes o seu olhar repleto de emoções após tirar a sós todas as conclusões que entendeu necessárias. 

A mulher falou primeiro:

'a visita está para breve e não conseguirás impedir que ele entre; purifica o teu sangue ou o código será prontamente desvendado'

Depois o homem:

' em pouco tempo o teu corpo seguirá o caminho dos eleitos, lembra-te das premonições passadas e do caminho que fizeste até aqui, só assim entenderás e tomarás consciência plena do teu lugar na revolução que aí vem'

Ficou a olhar de frente para eles, pensando nos seus sonhos e na estranha realidade que se lhe deparava. Em silêncio seguiu de novo caminho. O casal seguiu em direcção oposta, até ser engolido pelo horizonte.

Entrou na cidade das respostas decisivas e deu-se conta que as ruas estavam cheias de seres a praticar alegremente os sete pecados mortais. Passou incólume por entre essa horda de pecadores sem remissão até dar de caras com a revelação, como se uma luz repentina abrisse caminho por entre os condenados.

Prometeu a si mesmo não ceder um momento que fosse da sua vontade própria. Que pensassem o que quisessem que ele jamais seria apanhado em contradição.

O Céu e o Inferno esperavam pelo dia das grandes revelações e ambos os líderes estavam a pôr em prática o seu plano. O que não calculavam, dentro da sua soberba omnipotente, era que sobre a influência da Lua ninguém conseguia ao certo aceder ao seu pensamento. Quando se deu conta deste poder imaginou-se invencível, porém o apelo da aventura era muito mais forte e embarcava na viagem rumo ao cofre dourado, cada vez mais perto das suas mãos.
À sua volta traficava-se de tudo um pouco, sem que houvesse alguma autoridade a regular as coisas. Haviam escravos humanos que se conformavam com a situação sendo naturalmente transaccionados como o seu irmão gado. Outro havia que para vender o seu produto obrigavam as suas peças a despirem-se e a servir de cobaias para as explicações do proprietário. Soube-lhe tudo mal, mas procurou seguir caminho sem se deter naquilo que ajustaria mais tarde.

Ao mesmo tempo que andava um estranho cortejo funerário acercou-se da zona onde estava.

057 época de sonho e agonia

Tinha outros planos, algo que passava longe das guerras entre o bem e o mal e disso deu-se conta ao avistar a cidade que a voz lhe tinha indicado.

Nada de brilhante no horizonte, porém nada que fizesse prever ser aquele o templo maior dos oportunistas. parou por breves instantes e deu-se conta que todas as suas memórias eram fruto de alguma entidade que tinha colocado a sua alma naquele corpo não há muito tempo. Quis, no entanto, continuar a acreditar nas memórias do ocupante anterior, cuja alma havia sido enviada directamente para o fosso mais fundo do Inferno, ficando à guarda pessoal do secretário pessoal de Lúcifer.

Eram tempos de sonho e agonia, em que o improvável se confundia com a realidade fantasiosa. Era tempo de seguir e avistou uma Igreja, isolada, no meio do campo verdejante a perder de vista. Atraído pela invulgar descoberta pôs-se a caminho, sentindo uma atracção irresistível pelo que pensava poder vir a encontrar.
Chegado à porta parou, voltou-se para trás e viu as labaredas cada vez mais altas de um fogo que se acercava de forma assustadora. Abriu a porta e entrou. Quase ao mesmo tempo parou à sua frente um ser tapado com uma túnica castanha. Começou a vociferar coisas ininteligíveis e abraçou-o de repente.

O que começou por ser uma situação de puro conforto perante a ameaça exterior depressa se mudou para outra sessão de tortura indescritível. Os corpos emparelhados sangraram com cortes cirúrgicos, ao mesmo tempo que se fundiram.

Da mesma forma que veio se foi a dor e sentia-se como antes, apesar de pressentir que algo de maquiavélico estava para se soltar.

Entrou numa cidade em apoteose, repleta de cartazes a anunciar a reeleição do presidente da câmara. As ruas estava igualmente repletas de fanáticos que mais do que vibrar procuravam por vozes discordantes com o único intuito de as calar.

Sentiu-se perdido no meio daquela confusão mas lembrou-se da revelação que agora lhe corria no sangue buscando cumprir a sua missão com o mínimo de danos possíveis.

Escondido das vistas oficiais encontrava-se um casal que dialogava em voz quase imperceptível. Dirigiu-se a eles, movido por um impulso mais forte que a lógica que se lhe apresentava. Sem demorar muito tempo a passar entre a multidão, aquietou-se junto ao dito casal.

056 a terra sem vida

Ainda no ar apercebeu-se de um aglomerado de pessoas. Conseguia distinguir um ruído quase insuportável e braços no ar, apontando na sua direcção, como se fossem zombies desgovernados a babarem-se sem parar.

Antes que começassem a correr de encontro a si, aterrou num buraco fundo onde ficava abrigado dessas vistas indesejadas. Respirou fundo e deu-se conta de um pequeno charco repleto dum líquido vermelho que lhe parecia ser sangue. Apesar da estranheza do sucedido decidiu-se a sair dali, primeiro com algumas cautelas e depois correndo rapidamente para o primeiro descampado que lhe aparecesse. Podia então ver os corpos deambular num pranto de incalculáveis sons que prenunciavam algo de muito mau.

Sem que nada o fizesse prever viu-se rodeado de sal, que ia crescendo à sua volta como se fossem as partículas sobejantes das lágrimas sujas  de todos os que por ali se arrastavam.

Em poucos segundos ficou completamente tapado por sal. Começou a rodopiar sobre si mesmo descontrolado da sua vontade e o sal entranhou-se por completo no seu corpo, que, no entanto, não registava qualquer tipo de alteração.

Depois de consumir os sonhos negros em forma de lágrimas salgadas deu consigo num deserto sem fim à vista. Os que havia visto antes simplesmente desapareceram, ficando apenas uma melodia antiga que falava de olhar e esperar, pela eternidade. Numa terra sem vida, nasceu em definitivo o sentido de todos os sonhos que o haviam habitado antes. A realidade podia alterar-se de um momento para o outro mas tudo se estava a concretizar como se fosse uma profecia.

Após caminhar longas horas debaixo de um Sol escaldante e sem que conseguisse descortinar o segredo que o fazia voar, ajoelhou-se, na areia ardente e escutou uma prece vinda de um simples grão de areia, multiplicando-se pelos outros todos até o cercar, numa melodia de crescente desespero. Aquietou-se, porventura com medo, seguramente ansioso. A voz nascida da areia entrou dentro da sua alma e revelou-lhe a sua missão antes de se soltar pelo corpo e purificar a corrente sanguínea:

'Desta terra sem vida chegarás a uma cidade onde as pessoas se alimentam das fraquezas alheias. 
Seguirás o teu caminho sem hesitar um passo. Buscarás o cofre que contém o segredo para derrotar Lúcifer.
És o escolhido e nada pode ser feito para lutares contra os demónios, que se acercarão de ti. Ah deles nunca te livrarás!
Mas sempre que a tua alma se apoquente lembra-te que os anjos estão atentos a tudo o que se passa e por eles serás protegido quando a morte se afigurar a única saída possível.
Quando chegares à dita cidade, busca pela única casa que tem dupla cave. O teu instinto é infalível e se te deixares levar por ele alcançarás sempre tudo o que se te pede.'

Levantou-se e seguiu caminho até encontrar a tal cidade.

segunda-feira, 7 de março de 2011

055 coração esmagado

Pegou no carro e viajou de novo para o outro canto de um delírio que era a sua realidade. Nem anti-depressivos, nem bebidas energéticas para conseguir fazer o caminho sem que os olhos se fechassem. Queria a lucidez total para que soubesse o que era real ou imaginação.

Com a vida corrompida por dentro, seguiu caminho com a voz bem afinada e a cantar as paixões da adolescência à muito passada. Cerca de doze horas depois chegou ao destino, estacionando o carro atrás do Ajuntament. Atrás uma senhora, muito bem vestida, observava-o. Olhou para lá e ela foi-se aproximando. Um arrepio passou-lhe pela espinha e começou a andar até ao parquímetro. A senhora, absurdamente sexy parou atrás sussurrando algo. Ele virou-se e ficou a esperar algum tipo de reacção. Apenas teve tempo de lhe ver os iluminados olhos verdes. Caiu inanimado e só veio a acordar num quarto pequeno, decorado com cortinas vermelhas. Rogou uma praga aos céus e jurou que acabaria com aquele mundo fétido que o rodeava. 

Rasgou as cortinas e lançou-se da varanda, buscando a morte pouco mais abaixo. Por azar passava nesse mesmo instante uma carroça cheia de palha que lhe alongou a vida. Enfurecido entrou numa sex-shop e arrancou a orelha a um cliente que comprava artefactos sado-masoquistas para ser seviciado pela namorada. Sussurrou algo e cuspiu o pedaço de carne arrancado à força, enquanto o homem segurava no sexo endurecido da excitação da orelha desavinda com o seu corpo.

Fugiu rapidamente dali sem que conseguissem sequer ver quem ele era. Meteu-se no carro e fugiu. Os olhos irradiavam sangue e ao olhar para o espelho retrovisor não conseguia distinguir um horizonte de beleza e contemplação. 

O barulho ia aumentando provocando um estranho transe que lançava as pessoas para a beira de qualquer sítio perigoso. Ao mesmo tempo a terra começou a mover-se, engolindo tudo à medida que a tremideira aumentava. Voltou a olhar pelo espelho e via levantar-se atrás de si uma gigantesca nuvem de poeira, acompanhada por um ruído ensurdecedor e um forte odor a morte. Saiu do carro, mesmo sem o parar e mesmo com o seu impacto violento com o solo que o fez estatelar-se, levantou-se e seguiu, com algo branco a sair-lhe da perna ensanguentada.

Experimentou dar um salto e manteve-se no ar. Era a maneira de escapar a uma morte que, decididamente, não era algo que conseguisse concretizar.

Enquanto voava foi tomado por um sentimento de fúria desmedido que o levou a destruir tudo o que lhe aparecia pela frente, sem sequer pensar que esses actos poderiam ter consequências irreversíveis. Sentia-se invencível.

O coração batia descompassadamente e ao longe parecia que as coisas se acalmavam de novo.

domingo, 6 de março de 2011

054 a península delirante

A mulher deslumbrante ia abrindo caminho por entre as hordas de homens e mulheres excitados. Ao passar por alguém, este era acometido de demência instantânea, atacando quem lhe aparecesse à frente até nem os ossos lhe restarem.

Não foi preciso muito para que ali mesmo tivesse início uma pequena guerra cívil, onde a maldade de cada um era extrapolada muito para além do confronto físico. Os corpos despedaçados foram-se acumulando.

Ele ficou paralisado até ela chegar perto de si. Quando o alcançou despiu-o e fornicaram até à exaustão, enquanto o Apocalipse parecia tomar conta de todos à volta deles. Passado o tempo de se saciarem, fundiram-se, num processo absolutamente excruciante para ele que gritava sem parar sem que, no entanto, tentasse libertar-se.

Assim que terminou este processo, deu por si num carro, a caminho das praias. Ao seu lado estava de novo a namorada. Atrás as quatro filhas cantavam felizes um emaranhado de sons que se entranhava bem na alma.

Deixou de pensar no que era realidade ou fantasia. Sabia bem que elas nunca haviam estado ali e no entanto a realidade era aquela. Começou simplesmente a acreditar que a história dos sete demónios era verdade. Só isso explicava tanta e tão confusa reviravolta que o levava a tocar os extremos da península ibérica em sonho e realidade sensata e irracional ao mesmo tempo.

Dentro da sua tenebrosa lucidez deu-se conta que o que se passara antes fora a entrada de um demónio dentro de si. Sentia-se normal à mesma, mas a infalível intuição disse-lhe que algo estava profundamente errado. Poucos segundos depois teve um brutal acidente de carro, perdendo a consciência.

Ao acordar viu uma grande azáfama de médicos e enfermeiros. Ouvia falarem acerca de transfusões e da necessidade de entubar. Voltou a desmaiar. Tudo ficou completamente negro, não se lembraria de mais nada até voltar a acordar.

Lá fora dava-se uma revolução sangrenta, sempre contra a invasão das tropas americanas, cuja indústria de armamento decidira por sorteio ser a península ibérica o sítio ideal para despejarem as suas bombas excedentárias. Portugal, como quase sempre, era o elo mais fraco e entrariam por aí.

Os supostos senhores do mundo foram novamente surpreendidos com a resposta eficaz dos ibéricos não aliados de Madrid, que em segredo queria erradicar de vez toda e qualquer cultura que não fosse cem por cento castelhana. Essa surpreendente visão fê-lo despertar. 

sábado, 5 de março de 2011

053 viagem subitamente interrompida

Ao  largo do Tejo, entre Porto Brandão eo Estádio da Tapadinha deu-se um fenómeno curioso.

Ele sorria, do lado de Lisboa, como se viajasse nas consequências de uma qualquer dose de tempack, a nova droga da moda, imune a qualquer tipo de despistagem. Igualmente imune a essa espécie de felicidade artifical, formava-se um remoínho que levantava um fio fino de água que subia até à Ponte Tejo, parando no combóio que a atravessava. Olhou para cima e numa espiral de violência repentina uma nuvem negra ia tomando a forma de um tornado grau cinco, descendo até ao rio. Como já não sabia aquilo em que acreditar, pensou ser apenas uma violenta ilusão de óptica. Porém não se tratava de um pesadelo artísticamente elaborado pela sua mente inquieta.

Lembrando-se dos passos que dera no ar, concentrou-se e tentou repetir a façanha. Levantou voo, dirigindo-se desgovernado para dentro do fenómeno raro que o atraía como se fosse uma estranha forma de sedução onde voltaria a materializar todos os entes perdidos no dia anterior. Algo podia ser feito e estes novos poderes assim o demonstravam.

O combóio seguiu como se nada se tivesse passado. O fenómeno desapareceu tal como tinha aparecido. Já não haviam nuvens no céu e os remoínhos tinham-se evaporado.

Nem se havia tornado invísível, apenas seguiu até às portagens e mesmo na cabine 10 encontrou o motivo físico dessa estranha sedução que o fizera seguir pelos ares até encontrar uma mulher deslumbrante a receber dinheiro do condutor de um carro funerário. Um feixe de luz passou entre esses dois seres e o dito condutor seguiu desaparecendo no horizonte.

Ao mesmo tempo ele juntou uma pequena multidão, provocando uma manifestação espontânea que iria parar todo o trânsito, precisamente no momento em que se ia intensificar.

Era quase Natal, as gentes da cidade grande iam nos seus acessos de loucura induzida gastar os subsídios e esta era uma mensagem para parar, reflectir, meditar, fosse lá o que fosse desde que parassem.

Da mesma forma espontânea a mulher deslumbrante cruzou o seu olhar com ele. Saiu da cabine e provocou um alvoroço sem precedentes. Com muita calma dirigiu-se a ele, enquanto as suas ancas diabólicamente sedutoras excitavam todos os homens e mulheres até à loucura.

domingo, 23 de janeiro de 2011

052 nas horas de maior calor

Depois de uma noite agitada, despertou suado e à beira de um ataque de nervos. Sonhara uma existência normal que afinal não passava de mera fantasia. Quando os olhos se abriam as ideias sucediam-se em catadupa e a cabeça parecia explodir, o que até nem lhe parecia má ideia, não fossem as insuportáveis enxaquecas.

Estranhava o tesão que sentia perante a crueza dos factos e como a namorada não passava de um elaborado plano que o consumia, tinha que se masturbar para libertar qualquer energia negativa que possuísse. Não que se sentisse melhor, apenas um pouco mais aliviado do tesão que o angustiava.

Sem ser o costume que o assaltava todos os dias, resolveu tomar um banho de água gelada, aclarando as ideias que teimavam em suceder-se a um ritmo cada vez mais rápido. Deu um grito e deixou correr a água, como todos os humanos, uns mais que outros, foi-se habituando à ignóbil temperatura e deu-lhe um novo ataque de tesão sucedendo-se todas as mulheres com quem triunfalmente copulava dentro daquele chuveiro de magia. Até que caiu redondo no chão, vendo um suave fio de sangue a cair ao lado da sua cabeça. Pôs a mão no nariz e com o início da dor, apercebeu-se que era de lá que caía.

Levantou-se com dificuldade e podia ver o sangue claramente, porém este desaparecia no contacto com o chão. Fechou a água e saiu todo molhado da banheira. Limpou o vidro embaciado e olhou-se com atenção. Além da cara vermelha da água absurdamente quente, nada mais se passava.

O sangue parara de cair e do nada começou a cantar 'eu menti à saudade', fado injustamente obscuro com uma voz feminina deslumbrante e um acompanhamento musical como só se podia escutar naquele canto esquecido da península ibérica. Deu-se então conta que estava quase a bater com a cabeça no tecto. Sim os pés já só tocavam o ar, invisível para o absurdo dos humanos, para ele apenas mais uma de muitas matérias possíveis.

O calor tornava-se cada vez mais intenso e esta nova percepção das coisas levou-o a sorrir como nunca o havia feito. A paz agora sentida era algo absurdamente belo, como se dentro da sua existência se tivesse estabelecido uma nova vida. 

Voou até ao quarto e sem se dar conta, apareceu vestido. O mundo parecia ser só seu, com o vendaval de acontecimentos que se sucediam.

Entretanto estava preste a dar-se uma nova revelação.